03 abril 2025

"Desconhecidos", um suspense brutal que revela a reviravolta antes da hora

Willa Fitzgerald é a jovem caçada por um homem misterioso após uma noite de sexo (Fotos: Paris Filmes)


Maristela Bretas


"Desconhecidos" ("Strange Darling"), suspense do diretor e roteirista J.T. Moliner, que chega aos cinemas nesta quinta-feira, mergulha o espectador em uma perseguição implacável de um desconhecido a uma jovem, com momentos de terror e violência extrema. 

Após um encontro aparentemente casual e uma noite de muito sexo, Lady, papel de Willa Fitzgerald, se vê implacavelmente caçada por um homem (Kyle Gallner) com intenções sinistras. 

Paralelo a isso, a polícia está à procura por um serial killer que já matou várias pessoas pelo país com requintes de crueldade e que consegue fugir deixando um banho de sangue por onde passa.


Gostou da premissa? Mas ela pode mudar completamente. A trama é contada em capítulos intercalados, formando um flashback confuso inicialmente, mas que vai ganhando consistência à medida que avança. 

A crescente sensação de perigo é palpável desde os primeiros momentos. E as cenas de violência e caçada aumentam o suspense e a dúvida: quem é o gato e quem é o rato?

No entanto, a narrativa dá uma escorregada ao entregar muito cedo ao público a principal reviravolta da história. Essa revelação precoce pode ter sido intencional por parte do diretor para adicionar uma camada de tensão dramática, mas acaba por minar significativamente o impacto da história. 


O que poderia ser uma surpreendente guinada nos acontecimentos se torna uma mera confirmação do que já se suspeitava, reduzindo o mistério envolvendo os protagonistas. 

O filme só não se torna desinteressante graças às cenas de suspense e violência, construídas com competência, utilizando a trilha sonora e a cinematografia para criar uma atmosfera ameaçadora. São cenas cruas e impactantes que podem chocar o espectador.


A atuação de Willa Fitzgerald, mais conhecida por sua participação em várias séries de TV, também é outro trunfo de "Desconhecidos". A atriz entrega uma interpretação muito convincente como a jovem aterrorizada, carregando grande parte da carga emocional da narrativa. 

Ela consegue transmitir bem a angústia e o desespero da protagonista, tornando sua luta pela sobrevivência envolvente, mesmo quando o roteiro vacila. E ainda conta com um sucesso dos anos de 1970 para embalar sua personagem - "Love Hurts", da banda Nazareth.


Participam também do elenco Barbara Hershey, Ed Begley Jr., Jason Patric, entre outros.

"Desconhecidos" tem uma premissa interessante e a promessa de uma reviravolta cria expectativa. Contudo, a decisão de revelar cedo demais o plot twist principal enfraquece a experiência geral. 

Mesmo assim, o terror e o suspense são eficazes, e fazem com que o público espere por um final tão tenso quanto foi o restante da trama, mesmo que a surpresa tenha chegado antes da hora.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: J.T. Moliner
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h36
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: terror, suspense

02 abril 2025

Impossível não se emocionar com Fernanda Montenegro em "Vitória"

Atriz transforma sua expressão para levar o espectador a uma infinita gama de emoções (Fotos: Sony Pictures)


Mirtes Helena Scalioni


No filme "Vitória", em cartaz nos cinemas, Fernanda Montenegro faz jus - com louvor - ao apelido que recebeu, anos atrás, de um crítico: "cara de borracha". 

A alcunha, justificada pela facilidade e naturalidade com que a atriz transforma sua expressão para levar o espectador a uma infinita gama de emoções, tem, no longa dirigido por Andrucha Waddington uma amostra perfeita. 

O caso da mulher corajosa que, da janela de sua pequena quitinete em Copacabana, filma o movimento cotidiano de traficantes de drogas, usuários e policiais na favela ao lado, é, lógico, uma ótima história.


Mas talvez não tivesse se transformado no excelente filme que é se não tivesse a nossa Fernandona no papel principal. Há sim, pequenas e valiosas participações, mas a atriz, da altura dos seus 95 anos, consegue se superar, mesmo estando sozinha na tela na maior parte da produção. 

Estão no elenco Linn da Quebrada, Sacha Bali, Silvio Quindane, Laila Garin, Thelmo Fernandes, Alan Rocha, Thawan Lucas e outros. Raras atrizes conseguiriam o feito de Fernanda em "Vitória". É que ela, mesmo estando só, faz o jogo de cena - se é que isso seja humanamente possível. 


Não bastasse o talento da artista exibido em simples e corriqueiros diálogos com a caixa do supermercado, o sargento que a atende numa delegacia ou o porteiro do seu prédio, há situações em que ela, mesmo em silêncio, atua. 

Sim, Fernanda Montenegro consegue - acreditem - contracenar com um bolo, uma xícara, uma janela. Olhares, expressões de corpo, meneios e jeitos permitem que o espectador leia - e sinta - com ela: compaixão, medo, angústia, raiva, afeto, pavor, desconfiança, abandono.  

"Eles Não Usam Black-tie"(Reprodução)

Muito se fala da tal cena do feijão, do filme "Eles Não Usam Black-tie", quando Fernanda Montenegro (sempre ela) e Gianfrancesco Guarnieri, sentados à mesa, num momento delicado e carregado de conflitos para aquela família, e em silêncio, escolhem e separam feijões antes de colocá-los na panela. 

O filme, de 1981, foi dirigido por Leon Hirszman e essa espécie de pausa se transformou numa das tomadas mais famosas e icônicas do cinema brasileiro.


Pois em "Vitória", pode-se dizer que há algo semelhante, em um momento também cheio de significados para a história de solidão e abandono da personagem. 

Lentamente, ela vai até uma vitrolinha num canto da sala e, com cuidado, leva o braço do aparelho até um LP. Pequenos acordes de violão e o que se ouve a seguir é Nelson Cavaquinho, com aquela sua voz característica e cansada cantando pausadamente: "quando eu piso em folhas secas/caídas de uma mangueira/ penso na minha escola/ e nos poetas da minha Estação Primeira....."  

Não se sabe se andando ou dançando, Vitória chega até uma pequena mesa, puxa a cadeira, senta-se, pega uma embalagem de cola e começa a colar os cacos de uma xícara antiga de porcelana que, parece, é para ela um objeto de estimação e lembranças. Impossível não chorar.

Leia no blog a crítica de "Vitória", filme que já alcançou a marca de 500 mil espectadores e arrecadou mais de R$ 10 milhões até o momento.


Ficha técnica:
Direção: Andrucha Waddington
Roteiro: Paula Fiuza e Breno Silveira
Produção: Conspiração Filmes e coprodução MyMama Entertainment e Globoplay
Distribuição: Sony Pictures
Exibição: Redes Cineart e Cinemark, Centro Cultural Unimed-BH Minas e Una Cine Belas Artes
Duração: 1h52
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Gênero: drama criminal