03 março 2026

“Kokuho: O Preço da Perfeição”, o longa japonês que evidencia o teatro kabuki e desperta impaciência

Filme dirigido por Lee Sang-il e indicado ao Oscar 2026 na categoria Melhor Maquiagem e Penteado
(Fotos: Sato Company)
  
 

Eduardo Jr.

 
O sucesso deve ser reservado apenas a quem tem sangue de artista? Vocação e suor sem sobrenome famoso devem garantir o estrelato? Estas questões certamente vão ressoar na mente do público ao assistir “Kokuho: O Preço da Perfeição” ("Kokuho"), que estreia nos cinemas brasileiros dia 5 de março.

Dirigido por Lee Sang-il e indicado ao Oscar 2026 na categoria Melhor Maquiagem e Penteado, se tornou o longa japonês mais assistido da história do Japão, com mais de 12 milhões de espectadores.


A história começa em 1964, na cidade de Nagasaki, e termina 50 anos depois. No filme, tradições, laços de sangue, arte, ambição e ciúme atravessam as vidas de dois jovens. Kikuo (interpretado por Sōya Kurokawa na adolescência, e Ryô Yoshizawa na fase adulta) assiste ao pai, líder de uma gangue da Yakuza, ser assassinado. 

Órfão, ele passa a viver na casa de Hanai Hanjiro II (Ken Watanabe), um famoso ator do teatro kabuki. Daí, junto de Shunsuke (Keitatsu Koshiyama), filho único do ator, ele decide se dedicar a essa forma de arte.


O kabuki é um teatro surgido no século XVII, após o governo japonês proibir a presença de mulheres nos palcos. Com isso, os homens passam a desempenhar papéis femininos. Interpretam aquilo que não são. Uma bela metáfora sobre um dos dilemas vivido pelo protagonista.

A jornada de Kikuo, agora rebatizado de Toichiro, traz os elementos da humilhação e da dor física em busca da excelência. Mas estes não serão os únicos problemas dele. Herdar um sobrenome de peso, enfrentar o ciúme da família, lidar com a opinião pública, abdicar de aspectos da vida em nome da arte, enfrentar a angústia de não se sentir parte daquele mundo... 

Tudo isso vai criando camadas e se colocando como dramas do personagem – e alongando a história.


“Kokuho: O Preço da Perfeição” é inteligente ao mostrar personalidades complexas, desenvolvidas como num livro. Talvez por ser uma adaptação de um romance de mesmo nome, escrito por Shuichi Yoshida. Não há maniqueísmo. 

O adotado apresenta doçura e fúria, talento e medo; enquanto o herdeiro Shunsuke traz as tintas da ingenuidade, da inveja, da amizade e do revanchismo. Ninguém é só bom ou apenas ruim.

Por outro lado, o longa faz jus ao termo que o caracteriza: é longo! É contemplativo e também cansativo. A grande quantidade de marcações de passagem de tempo deixa as quase três horas de filme ainda maiores. Contar a vida de alguém leva tempo, mas não tira do espectador a sensação de cansaço.  


Durante esse tempo, o público vai desfrutar de câmeras bem posicionadas, colocando algumas cenas como pinturas orientais. Destaque para a cena no cemitério, onde as opiniões têm lados definidos, e as apresentações de kabuki nos palcos.

O termo kokuho significa “tesouro nacional”. Se esse título de importância se refere à arte centenária do teatro ou à pessoa que abre mão de diversas coisas em nome do topo da arte, é algo que fica no ar, indefinido. Assim como o filme: morno, no meio do caminho. Vale à pena assistir, mas desperta mais impaciência do que emoção.  


Ficha técnica:
Direção: Lee Sang-il
Distribuição: Sato Company e Imovision
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h54
Classificação: 14 anos
País: Japão
Gênero: drama

02 março 2026

“Cara de Um, Focinho de Outro” emociona ao misturar aventura, tecnologia e alerta ecológico

Em nova animação da Pixar, humanos e animais dividem o protagonismo, cada um apresentando seu
lado de uma história (Fotos: Disney Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Emocionante e divertido, uma animação para a família toda. A Pixar Animation entrega, com “Cara de Um, Focinho de Outro” (“Hoppers”), mais uma bela produção capaz de fazer rir e chorar, levando ao público — dos seis aos 100 anos — uma mensagem bastante atual: é preciso cuidar e preservar a natureza e aprender a viver em harmonia com ela.

O filme estreia nos cinemas no dia 5 de março, em versões dubladas e legendadas, mas já pode ser conferido em várias salas das redes Cineart, Cinemark e Cinépolis BH.


Humanos e animais dividem o protagonismo, cada um apresentando seu lado de uma história que gira em torno de um pequeno lago nos arredores de uma cidade. No passado, Mabel Tanaka (Piper Curda) já era defensora dos animais, mesmo quando toda a população a criticava.

A única que a compreendia era sua avó, a Sra. Tanaka (Karen Huie), que morava perto do lago. Foi ela quem ensinou à neta a importância de ouvir os sons da natureza para entendê-la melhor, além de ajudá-la a lidar com a própria raiva e a controlar suas emoções.


Na adolescência, não poderia ser diferente. Ao descobrir que o pequeno refúgio natural onde viveu seus melhores dias de infância seria destruído pelo “avanço do progresso”, Mabel decide recorrer a uma tecnologia revolucionária para se conectar aos animais que ali habitavam e que precisaram fugir.

Ela transfere sua consciência para o corpo de um castor robótico, o que lhe permite explorar o universo animal — suas aventuras, alegrias, emoções e conflitos. 

A partir daí, promove uma verdadeira revolução dos bichos, enfrentando Jerry (Jon Hamm), o prefeito da cidade, determinado a acabar com o lago dos castores. Mas tudo tem seu preço, e a situação pode acabar ameaçando também a existência dos humanos.


Nomes conhecidos de Hollywood participam da aventura como dubladores. Meryl Streep dá voz à Rainha dos Insetos — na versão brasileira, Renata Sorrah estreia na dublagem. 

Dave Franco interpreta Titus, auxiliar da professora Sam (Kathy Najimy), que também trabalha com Diane (voz de Vanessa Bayer no original e de Thaís Fersoza na versão em português). 

Destaque para George (Bobby Moynihan), o Rei dos castores e Mamíferos, com sua coroa e varinha, liderando toda a comunidade com pompa e personalidade e que se torna o melhor amigo de Mabel.

O elenco conta ainda com Melissa Villaseñor (Ellen), Ego Nwodim (Rainha dos Peixes), Sam Richardson (Conner), Aparna Nancherla (Nisha), Nichole Sakura (Rainha dos Répteis), Isiah Whitlock Jr. (Rei dos Pássaros), Steve Purcell (Rei dos Anfíbios).


Entre correrias, gritos e confusões no reino animal, “Cara de Um, Focinho de Outro” aposta em um humor afiado ao tratar da destruição da natureza pelo homem e de como ela pode revidar quando menos se espera. 

A história lembra um pouco “Avatar” — como a própria protagonista menciona — ao utilizar a tecnologia para transferir mentes humanas para robôs, que passam a funcionar como canal de comunicação com os animais reais.

Visualmente, a animação é impecável, com imagens vibrantes, cenários bem detalhados e personagens que conquistam o público de imediato — até mesmo os vilões. 


Alguns personagens podem assustar crianças muito pequenas, especialmente os reis e rainhas de determinadas espécies quando declaram guerra aos humanos. Ainda assim, o filme equilibra bem tensão e humor, mantendo o tom leve e reflexivo.

Mais uma vez, a Pixar mostra que sabe contar histórias que divertem, emocionam e, principalmente, fazem pensar, agora sem deixar de lado a presença da tecnologia como uma aliada.
 

Ficha técnica:
Direção: Daniel Chong
Roteiro: Jesse Andrews e Daniel Chong
Produção: Pixar Animation Studios e Walt Disney Pictures
Distribuição: Disney Pictures e Disney+
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h45
Classificação: Livre
País: EUA
Gêneros: animação, aventura, comédia