14 setembro 2026

"Viva Marília": uma celebração que poderia revelar mais por trás da estrela

Documentário sobre Marília Pêra foi codirigido pela filha Esperança Motta
com roteiro do ex-marido Nelson Motta (Fotos: Acervo Pessoal/Marília Pêra)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
“Viva Marília” revisita a trajetória de uma das artistas mais versáteis da cultura brasileira. Em cartaz no Cine Belas Artes, o documentário é dirigido por Zelito Viana, com codireção da filha Esperança Motta e roteiro do ex-marido Nelson Motta. 

Narrado pela própria Marília Pêra, o filme percorre sua carreira por meio de entrevistas, cenas de filmes, novelas, espetáculos e programas de televisão, além de fotografias e registros de seu acervo pessoal. 

Produzido pela Mapa Filmes do Brasil tem coprodução de Globo Filmes, Globo News e Canal Brasil, com distribuição da Mapa Filmes e codistribuição da Bretz Filmes.


O resultado é também uma viagem por diferentes momentos do Brasil, acompanhando uma artista que atravessou décadas sem se limitar a uma única linguagem. Teatro, cinema, televisão, comédia, drama e musicais fizeram parte de uma trajetória marcada pela versatilidade e por mais de 80 prêmios.

Filha dos atores Manuel Pêra e Dinorah Marzullo, Marília cresceu cercada pelo teatro e aprendeu desde cedo os códigos do palco. Essa formação ajuda a entender uma carreira construída na capacidade de transitar entre diferentes personagens e linguagens. 


Mas sua história vai além do sucesso profissional. Durante a ditadura militar, esteve no elenco de “Roda Viva”, de Chico Buarque, espetáculo que sofreu uma invasão violenta em 1968. A agressão aos artistas tornou o palco também um espaço de resistência em um período marcado pela censura e pela repressão.

O documentário recupera ainda episódios que ajudam a dimensionar sua relação com outros nomes importantes da cultura brasileira, como Elis Regina, com quem disputou o papel principal do musical Como Vencer na Vida sem Fazer Força. 


Mais do que uma antiga disputa profissional, a história revela a admiração entre duas artistas que fizeram da presença em cena uma de suas principais marcas.

É justamente na maneira de contar essa história que está o principal problema de “Viva Marília”. O filme é extremamente chapa-branca e, ao optar quase sempre pela celebração, deixa pouco espaço para outras visões sobre a atriz. 

A condução da narrativa por Marília dá ao documentário um caráter íntimo, mas também limita os contrapontos. Faltam vozes capazes de tensionar a memória, questionar escolhas e apresentar outras perspectivas sobre a mulher e a profissional. 


Sua vida familiar, os três filhos — Ricardo Graça Mello, Esperança Motta e Nina Morena — e os diferentes relacionamentos que marcaram sua vida também aparecem de maneira bastante superficiais.

Ainda assim, o documentário cumpre um papel importante ao preservar a memória de uma artista que ajudou a construir o imaginário cultural brasileiro. As imagens de arquivo revelam não apenas a passagem do tempo, mas a transformação de Marília diante das câmeras e no palco. 

O problema é que em “Viva Marília” tudo é muito literal: a carreira é apresentada, os momentos importantes são recuperados e os personagens que fizeram parte dessa trajetória são lembrados, mas quase sempre falta o próximo passo — a reflexão. 


O filme poderia questionar mais, provocar mais e explorar as contradições de uma mulher e de uma artista tão complexa. Em vez disso, prefere reafirmar aquilo que já sabemos sobre Marília Pêra.

“Viva Marília” funciona, portanto, como um registro afetivo e uma oportunidade de reencontro com uma grande atriz, mas poderia ser muito mais. Ao transformar sua trajetória quase exclusivamente em celebração, o documentário acaba contando quem foi Marília Pêra, mas pouco se arrisca a perguntar quem ela foi de fato.


Ficha técnica:
Direção: Zelito Viana
Produção: Mapa Filmes do Brasil
Distribuição: Mapa Filmes, codistribuição Bretz Filmes
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h20
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: documentário

10 setembro 2026

"Homem-Aranha: Um Novo Dia" coloca Peter Parker diante do seu maior inimigo: a solidão

Quarto filme do super-herói amplia as conexões do personagem com outros núcleos do Universo Cinematográfico Marvel (Fotos: Sony Pictures)
 
 

Maristela Bretas


Em “Homem-Aranha: Um Novo Dia” (“Spider-Man: Brand New Day”), em cartaz nos cinemas, sob a direção de Destin Daniel Cretton, encontramos o Amigo da Vizinhança vivendo integralmente para defender Nova York. 

Quatro anos depois dos acontecimentos de “Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa” (2021), ninguém mais se lembra que ele é Peter Parker (novamente vivido por Tom Holland) — nem mesmo aqueles que mais amava.

Mas o pior para o super-herói é acompanhar de longe a vida da amada MJ (Zendaya) e do melhor amigo Ned Leeds (Jacob Batalon), que também não se lembram dele. 


Peter, agora adulto e mais maduro, tornou-se um Homem-Aranha mais experiente, sem perder o carisma e o jeito doce de bom menino que sempre o diferenciaram dos demais Vingadores.

Direcionando toda sua energia para o combate ao crime, ele passa a trabalhar ao lado da polícia e da detetive Jean DeWolff (Liza Colón-Zayas). A solidão e o afastamento das pessoas que ama, porém, começam a cobrar um preço alto.

O corpo e a mente do Homem-Aranha sofrem transformações que aumentam seus poderes, mas também provocam alterações de comportamento e agressividade, colocando em risco quem está ao seu redor. 


Tudo se complica com o surgimento de uma nova ameaça, capaz de controlar a mente das pessoas. É Jean Grey (Sadie Sink, de “Stranger Things”), uma jovem mutante com poderes que ainda não faz parte dos X-Men e sequer teve contato com o Professor Charles Xavier. 

Após um trauma familiar, ela procura respostas e acaba se tornando uma das adversárias mais perigosas já enfrentadas pelo herói.

Esse é um dos pontos positivos de “Homem-Aranha: Um Novo Dia”: o filme amplia as conexões do personagem com outros núcleos do Universo Cinematográfico Marvel. 
                      

Ao lado do Teioso aparecem Frank Castle, o Justiceiro (Jon Bernthal), Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) e Yelena Belova/Viúva Negra (Florence Pugh), que acabam se tornando importantes aliados na batalha. 

O encontro com o Justiceiro, principalmente, dá ao longa um tom mais urbano e próximo das histórias de crime que fazem parte da origem do personagem nos quadrinhos.

No elenco também estão nomes conhecidos da franquia, como Marisa Tomei, novamente como tia May; Michael Mando, como Mac Gargan/Escorpião; e Tramell Tillman, como Bill Metzger, ligado ao Departamento de Controle de Danos. 



A trilha sonora é outro destaque. Michael Giacchino, responsável pelas partituras dos três filmes anteriores de Tom Holland como Homem-Aranha, retorna com uma composição que acompanha tanto a ação quanto o momento mais solitário de Peter. 

As músicas escolhidas ajudam a criar uma identidade mais urbana e contemporânea para o longa, com nomes como Tame Impala, Bad Bunny, TV on the Radio, Chaka Khan, Cannons e Steve Lacy.

Mais que um filme de super-herói, com teias, explosões, lutas, perseguições pelas ruas de Nova York e acrobacias no ar, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” aposta no amadurecimento de Peter Parker e nas consequências de sua escolha de dedicar a vida ao combate ao crime. 


O personagem ganhou experiência, força e confiança como Homem-Aranha, mas perdeu justamente aquilo que fazia sua vida como Peter Parker valer a pena.

Em nenhum dos filmes anteriores do personagem a ideia de que "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades" parece tão presente quanto aqui. 

Peter precisa entender que ser herói não significa abrir mão de tudo que o torna humano. Por trás da máscara ainda existe um homem que sente falta de ter amigos, de amar e de ser lembrado.


E é justamente aí que Tom Holland encontra um dos melhores momentos de sua atuação como Peter Parker. Mais solitário, cansado e emocionalmente machucado, ele mostra um herói que já não precisa aprender a balançar entre os prédios, mas ainda necessita descobrir como viver sem as pessoas que perdeu. O Homem-Aranha está mais forte. Peter Parker, nem tanto.

Mesmo sabendo que não pode simplesmente voltar ao passado, o público torce para que Peter encontre novamente seu caminho até MJ e consiga recuperar a amizade com Ned. Afinal, o Homem-Aranha pode viver sozinho por algum tempo, mas Peter Parker não precisa — e talvez nem consiga — continuar assim.


Como toda boa franquia que ainda movimenta multidões, o filme deixa portas abertas para novas aventuras. Até o momento, o longa arrecadou mundialmente mais de US$ 2,4 bilhões, tornando-se a terceira maior bilheteria da história do cinema. 

A cena pós-créditos reforça a promessa de que o Homem-Aranha voltará, enquanto a presença de personagens como a Viúva Negra, Hulk, Justiceiro e Jean Grey amplia ainda mais as possibilidades para o futuro do Universo Marvel.  

O longa também prepara terreno para acontecimentos maiores, como “Vingadores: Doomsday”, com estreia em dezembro de 2026, e “Vingadores: Guerras Secretas”, previsto para dezembro de 2027. Jean Grey ainda terá participação no novo filme dos X-Men, que deverá estrear em 2028.



No fim, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” entrega aquilo que os fãs esperam — ação, humor, referências aos quadrinhos e grandes encontros —, mas ganha força justamente quando deixa as explosões de lado para mostrar a solidão de Peter. 

Porque, antes de ser um dos maiores heróis da Marvel, ele continua sendo um garoto que queria fazer a coisa certa.

Talvez esse seja o verdadeiro “novo dia” do título: não o nascimento de um novo Homem-Aranha, mas o começo de uma nova fase para Peter Parker, que finalmente precisa aprender que salvar o mundo não significa necessariamente abrir mão de ter uma vida. 

Para quem ainda não assistiu, este é um dos melhores filmes da franquia atual.


Ficha técnica:
Direção: Destin Daniel Cretton
Roteiro: Chris McKenna e Erik Sommers
Produção: Columbia Pictures, Sony Pictures Marvel Studios
Distribuição: Sony Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h30
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: ação, aventura