15 junho 2026

"Criadas" propõe quebrar paredes que perpetuam as desigualdades raciais, sociais e de gênero

Entre os maiores méritos da obra está a atuação das protagonistas Ana Flávia Cavalcanti e Mawusi Tulani (Fotos: Vitrine Filmes)
 
 

Silvana Monteiro

 
Em "Criadas", Carol Rodrigues constrói um drama que parte da intimidade de uma casa para investigar estruturas profundas da sociedade brasileira na pele de mulheres, a maioria delas negras. 

Sandra (Mawusi Tulani) está em busca de lembranças de sua mãe. Por isso ela procura Mariana (Ana Flávia Cavalcanti), sua prima, que vive no lugar em que sua mãe atuou como trabalhadora doméstica. 

O reencontro entre elas é permeado de conflitos necessários para ressignificar as relações. Por ser a herdeira de uma mulher que viveu o trabalho doméstico, Sandra traz em si uma força motriz com maior sensibilidade. 


A atuação das duas funciona como o eixo de uma narrativa que examina as diferentes experiências de mulheres negras situadas em posições sociais distintas, revelando como raça, classe e pertencimento produzem trajetórias marcadas por privilégios e vulnerabilidades desiguais. 

Embora ambas compartilhem origens, raça e afetos, suas experiências são atravessadas por formas distintas de reconhecimento social. Mariana, filha da patroa, alcança uma condição de relativa mobilidade e circula por espaços onde sua identidade racial é frequentemente relativizada ou invisibilizada por olhares brancos. 

Sandra, mulher negra retinta, ocupa uma posição de destaque profissional, mas continua submetida às formas mais explícitas do racismo estrutural e do machismo corporativo. O contraste entre as duas personagens permite ao filme abordar questões como colorismo, trabalho doméstico, mobilidade social e desigualdade racial sem recorrer a soluções simplificadoras.


A casa onde a narrativa se desenvolve torna-se uma metáfora do próprio Brasil. Seus cômodos guardam memórias, silêncios e hierarquias que atravessam gerações. 

As paredes não delimitam apenas espaços físicos, mas também fronteiras simbólicas entre quem serve e quem é servido, entre quem herda privilégios e quem precisa constantemente justificar sua presença. 

A ancestralidade ocupa papel central na narrativa. Os fantasmas que percorrem a casa não são apenas recursos sobrenaturais; representam memórias coletivas que insistem em permanecer. 

O passado não aparece como lembrança distante, mas como uma presença concreta que interfere no presente e desafia as protagonistas a compreenderem quem são. 


Nesse sentido, a busca pelo eu se confunde com a necessidade de reconhecer as marcas deixadas pela história, pela família e pelas relações raciais que moldam suas identidades.

O roteiro também amplia a discussão ao abordar relações afetivas fora da lógica heteronormativa. A sexualidade de Mariana traz, de modo breve, à reflexão sobre pertencimento, liberdade e construção identitária. O filme traz à tona os questionamentos de uma relação interracial. 

Entre os maiores méritos da obra está a atuação das protagonistas. Ana Flávia Cavalcanti entrega uma Mariana complexa, marcada por contradições e zonas de desconforto. 


Sua interpretação evita respostas fáceis e evidencia uma personagem constantemente tensionada entre consciência social e reprodução de privilégios. Já Mawusi Tulani oferece à Sandra uma presença de grande força dramática. 

Sua composição transita entre firmeza e vulnerabilidade, conferindo humanidade a uma mulher que precisa enfrentar diariamente estruturas de discriminação sem perder a capacidade de afeto. 

O encontro entre as duas atrizes constitui o coração emocional do filme de sustentar os debates sociais sem reduzir as personagens a meros instrumentos discursivos.


A trilha sonora, composta por excelentes canções brasileiras de grande sensibilidade, amplia essa dimensão afetiva. A fotografia é maravilhosa e nos leva à memória de um ambiente ancestral e afetivo. "Criadas" propõe uma reflexão ampla sobre o Brasil contemporâneo. 

Embora seja um pouco longo, trata-se de um filme que, mesmo quando sacrifica a sutileza em favor da pedagogia, demonstra coragem ao enfrentar temas historicamente silenciados e ao colocar duas mulheres negras no centro de uma narrativa sobre memória, identidade e transformação.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Carol Rodrigues
Produção: Gato do Parque Cinematográfica, em coprodução com Telecine, Canal Brasil, NayMovie, Cinefilm, Volta Filmes e Netas de Esméria
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cine Belas Artes BH
Duração: 1h45
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gênero: drama

11 junho 2026

"Dia D" - Spielberg usa os alienígenas para falar de nós mesmos

Diretor retoma sua paixão pela ficção científica misturando ação, conspiração e fé em nova produção 
(Fotos: Universal Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Uma reunião de amigos numa viagem ao passado. Este é "Dia D" ("Disclosure Day"), novo filme de Steven Spielberg em cartaz nos cinemas, o 37º de sua carreira, que traz fortes referências a produções marcantes de sua carreira. 

O diretor, que sempre demonstrou fascínio por temas ligados à presença de extraterrestres em nosso planeta, volta a explorar esse universo e conduz a história com a experiência de quem ajudou a definir o gênero.

Longas como "ET - O Extraterrestre" (1982) e "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" (1977) são lembrados em várias cenas, reforçando o lado mais emocional de Spielberg, que completa 80 anos no final de 2026. 

Diferentemente de "Guerra dos Mundos" (2005), que apostava mais na ação, mas sem deixar de lado as relações familiares. Até mesmo produções de outros diretores, como "Sinais" (2002), de M. Night Shyamalan, vêm à memória em determinados momentos.


E, como disse antes, esse reencontro de velhos amigos começa pela trilha sonora de John Williams, responsável pelas composições de grande parte dos filmes mais importantes de Spielberg, incluindo os três citados acima. 

A ideia de "Dia D" partiu do próprio diretor e foi entregue a outro parceiro de longa data, David Koepp — roteirista de "O Mundo Perdido: Jurassic Park" (1997) e "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" (2008) — para desenvolver a história.

No novo longa, Spielberg aposta na divulgação de documentos ultrassecretos sobre a presença de extraterrestres na Terra e o contato direto das forças militares norte-americanas com eles. Coincidência ou não, um dos períodos de aparições alienígenas destacados na trama é o governo Nixon, tema que dialoga com outro trabalho do diretor, "The Post - A Guerra Secreta" (2017).


Na história, Daniel Kellner (Josh O'Connor) e Hugo Wakefield (Colman Domingo) trabalham na segurança da agência secreta Wardex responsável por guardar esses arquivos e decidem revelar ao mundo os segredos sobre os ETs entre nós. 

A partir daí começa uma perseguição implacável, repleta de ação, ótimas cenas de perseguições (especialmente a do trem) e suspense, liderada por Noah Scanlon (Colin Firth), chefe dessa agência que tenta capturar a dupla e recuperar os pendrives com os documentos.


Enquanto isso, em outra parte do país, a meteorologista Margareth Fairchild (Emily Blunt), apresentadora de uma emissora de TV em Kansas City, passa a apresentar um comportamento estranho, falando em uma língua desconhecida. 

Sem entender o motivo, se vê misteriosamente conectada aos dois foragidos. Especialmente a Daniel, o único humano capaz de decifrar a linguagem alienígena. Todos os atores entregam ótimas interpretações e bem alinhadas à proposta da trama.

O elenco conta ainda com Eve Hewson, como Jane, namorada de Daniel; Wyatt Russell, como o atual companheiro dela; e Henry Lloyd-Hughes, no papel de Casper, chefe da segurança de Noah, entre outros.


O filme apresenta diversas imagens dos contatos com alienígenas, tanto em situações amistosas quanto em episódios de atrocidades praticadas pelos humanos. 

Algumas dessas sequências poderiam facilmente integrar os arquivos secretos recentemente divulgados pelo governo dos Estados Unidos sobre fenômenos extraterrestres e que foram guardados a sete chaves por décadas.

Mas Spielberg vai além da ficção científica. O diretor também coloca a fé em debate, levando até personagens religiosos a questionarem suas próprias crenças. Deus criou o universo apenas para os humanos? Estamos realmente sozinhos? 

Ao mesmo tempo, a divulgação das imagens gera dúvidas sobre o que é verdadeiro e o que é falso num mundo em que a inteligência artificial e as fake news dominam as redes sociais e provoca reações diversas.


O longa demonstra preocupação em retratar os alienígenas como seres mais evoluídos — e possivelmente até mais humanos — do que nós mesmos. A revelação dos arquivos acontece justamente num momento delicado, quando o planeta parece caminhar para uma Terceira Guerra Mundial.

Mais uma vez, aflora o lado emocional de Spielberg, embalado pelos arranjos de John Williams e pela belíssima fotografia de Janusz Kaminski, outro colaborador histórico do diretor, responsável por trabalhos como "Os Fabelmans" (2022), "Amor, Sublime Amor" (2021) e "Munique" (2005).

"Dia D" deixa uma grande interrogação no ar: Spielberg queria apenas fazer mais um filme sobre alienígenas ou provocar uma reflexão sobre a possibilidade — cada vez menos tratada apenas como ficção — de que não estamos sós no universo?


No início, o longa pode parecer confuso, apresentando fatos isolados que, com o decorrer da trama, vão sendo interligados, mostrando que a desinformação gera temor. E que as pessoas podem não estar preparadas para aceitar a presença alienígena.

Talvez o verdadeiro Dia D seja justamente o dia da revelação e a presença desses seres na Terra represente mais esperança do que ameaça. Para descobrir, será preciso tirar os olhos das telas por alguns instantes e ouvir a mensagem que eles tentam nos transmitir sobre o futuro que estamos construindo.

Assista ao filme e deixe aqui seu comentário sobre o que achou.


Ficha técnica:
Direção:
Steven Spielberg
Roteiro: David Koepp
Produção: Universal Pictures e Amblin Entertainment
Distribuição: Universal Pictures Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h25
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: Ficção, suspense