04 maio 2026

"2DIE4: 24 Horas no Limite": Imersão de tirar o fôlego deixa a história para trás

Primeira produção brasileira a apostar na tecnologia IMAX, acompanhando o piloto Felipe Nasr em tempo real (Fotos: Paulo Oliveira)
 
 

Maristela Bretas

 
Há uma ideia potente no centro de “2DIE4: 24 Horas no Limite” — e ela, de fato, acelera forte. O problema é que o filme parece mais interessado em impressionar do que em sustentar o percurso. Primeira produção brasileira a apostar na tecnologia IMAX, o longa dirigido pelos irmãos publicitários André e Salomão Abdala mergulha o espectador na experiência das 24 Horas de Le Mans de 2025.

O filme acompanha o piloto brasileiro Felipe Nasr, quase em tempo real, na prova de resistência mais famosa do automobilismo mundial, considerada a mais antiga e exigente da história.

Nesse aspecto é impossível negar seu impacto: há momentos em que a sensação de estar dentro do cockpit é tão convincente que o cinema praticamente desaparece — sobra apenas a corrida. Isso para uma produção que contou com apenas oito pessoas e levou dois anos para ser realizada.


A fotografia é um espetáculo à parte, especialmente nas cenas captadas ao amanhecer e durante o dia, quando a luz recorta os carros e a pista com precisão. A qualidade de imagem é, sem exagero, impressionante, e justifica plenamente a ambição de ser o primeiro filme brasileiro pensado para esta tecnologia. 

A proposta sensorial funciona: o longa não quer apenas ser visto, quer ser sentido. A produção foi vencedora do Motor Sports Film Award 2025 na categoria Melhor Documentário de Longa-Metragem.

Essa escolha, no entanto, cobra seu preço. Ao estruturar o filme como uma sucessão de “melhores momentos” da corrida, os diretores acertam no ritmo, mas sacrificam muito a construção dramática. O que poderia ser um retrato íntimo da pressão física e psicológica de uma prova de resistência se transforma em algo superficial, quase ilustrativo. 


A tentativa de criar um arco emocional para Nasr — por meio de narrações em off e cenas encenadas de preparação e introspecção — soa artificial. Em vez de aprofundar o personagem, que inegavelmente é um grande piloto, essas inserções lembram discursos motivacionais prontos, quebrando a autenticidade que o restante do filme tenta construir. 

A narrativa passa a imagem de uma pessoa arrogante e dona da verdade, que desmerece o trabalho da equipe e dos demais pilotos, se colocando quase que como única salvação para a vitória. Todos os demais são meros componentes de um filme que foi feito para valorizar Felipe Nasr e a Porsche.


Há também um desequilíbrio na mixagem de som. Embora a trilha sonora seja eficiente e envolvente, seu uso excessivo acaba sabotando a própria experiência. Em diversos momentos, a música se sobrepõe ao ronco dos motores — que deveria ser protagonista — e até mesmo às conversas de bastidores. Para um filme que busca imersão, chega a ser incoerente abafar, por diversas vezes, seus próprios elementos mais orgânicos.

“2DIE4: 24 Horas no Limite” tem seus méritos: ao abrir mão de entrevistas, contextualizações e explicações didáticas, ele aposta na imersão pura, transformando o espectador em participante direto da corrida. Uma associação interessante entre documentário e ficção sensorial, uma ousadia rara no cinema nacional.


Para os fãs de automobilismo, é um prato cheio: tecnicamente arrebatador e capaz de entregar momentos de tirar o fôlego. No entanto, a narrativa da produção é cansativa, com furos que incomodam até mesmo quem acompanha o mundo do automobilismo. 

Além de abusar em longos minutos de tela preta, que ajudam a confirmar que toda a potência do IMAX foi apenas parcialmente aproveitada, assim como o tema e que a duração de 60 minutos poderia ser menor. “2DIE4: 24 Horas no Limite” acelera com força, mas esquece de construir uma linha de chegada que valha a jornada ao cinema para o público comum.

OBS.: Como parte da divulgação do filme, o carro dirigido por Felipe Nasr pela equipe Porsche Penske Motorsport, o Porsche 963 de número 7, está em exibição no terceiro andar do Boulevard Shopping, em BH.


Ficha técnica:
Direção: André e Salomão Abdala
Produção: Abdala Brothers
Distribuição: 02 Play Filmes
Exibição: sala IMAX do Cineart Boulevard, sala 2 do Cineart Ponteio e sala 3 do Cinemark Pátio Savassi
Duração: 60 minutos
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: documentário

02 maio 2026

"Mãe e Filho" envolve o espectador em trama regada a sede de vingança

O roteiro consegue manter a atenção o tempo todo, acrescentando fatos em curtos intervalos na vida da enfermeira e seus dois filhos (Fotos: Retrato Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
Um dos grandes trunfos de “Mãe e Filho”, em cartaz no Centro Cultural Unimed-BH Minas e Una Cine Belas Artes, é o de conseguir fazer com que o espectador adentre o universo da personagem feminina citada no título – a enfermeira Mahnaz (interpretada por Parinaz Izadyar) - e, desse modo, compartilhe de maneira intensa os sentimentos que povoam a jovem viúva, mãe de dois filhos, a cada etapa dos acontecimentos que constituem a narrativa. 


Tão importante quanto, principalmente a partir da segunda metade do filme iraniano dirigido por Saeed Roustaee, o roteiro é tão bem urdido que a ansiedade invade o público o tempo todo, fazendo-o ansiar pelo desdobrar da trama.

A parte inicial é mais dedicada a apresentar o filho mais velho de Mahnaz, o adolescente Aliyar (Sinan Mohebi), que, vale dizer, não soa como uma figura simpática. Ao contrário. A série de situações apresentadas que o envolvem diretamente dificultam que o espectador se apegue ao personagem. 


No entanto, um acontecimento abrupto promove uma reviravolta. Bem, comentar o filme sem incorrer em spoilers é uma tarefa hercúlea, mas, a partir deste ponto de virada, a figura materna ocupa ainda mais espaço. 

O sofrimento se avoluma de tal forma que é difícil não tentar praticar o exercício de se colocar no lugar de Mahnaz e pensar no que fazer quando todas as certezas parecem desmoronar como um castelo de cartas.

A decepção com a atitude dos familiares mais próximos – mãe e irmã – e com o núcleo do finado marido se potencializa com a atitude do noivo. O mar revolto se agrava à medida que uma cadeia de segredos começa a ser revelada. E, a partir daí, a sede de vingança dá a tônica. 


Ainda que não concordemos com as atitudes de Mahnaz, é impossível não a entender. Mesmo porque, em algum ponto da vida, todos nós nos sentimos injustiçados por um motivo ou outro, ainda que a maioria não em tamanha intensidade.

Muito bem planejado, o roteiro consegue manter a atenção o tempo todo, com o bônus de ir acrescentando fatos em curtos intervalos, assim como em colocar, na balança, a questão da ética em várias oportunidades. 

A performance de Parinaz Izadyar é um fator determinante para o resultado do filme. Trata-se de uma atriz que consegue dizer muito até com o olhar. A forma como defende, tal qual uma leoa, o filho é tocante. 


Em Mahnaz, tristeza e raiva se mesclam sem litígio e deságuam na ação tempestuosa, ainda que em um mundo no qual a personagem central está cônscia de que o patriarcado dita as regras. Em meio a tudo isso, vale citar, ainda, a atuação de Arshida Dorostkar, a atriz mirim que interpreta Neda, a filha mais nova de Mahnaz, outra que diz tanto pelo olhar. 

Completa o rol de trunfos a presença do ator Payman Maadi, conhecido do público cinéfilo brasileiro pela presença em “Separação” (2011), de Asghar Farhadi, que venceu na categoria Filme Estrangeiro no Oscar 2012. O longa, vale lembrar, pode ser visto no Prime.


Ficha técnica:
Direção: Saeed Roustaee
Produção: Iris Film
Distribuição: Retrato Filmes
Exibição: Centro Cultural Unimed-BH Minas e Una Cine Belas Artes
Duração: 2h11
Classificação: 16 anos
País: Irã
Gêneros: drama