13 maio 2026

Instigante e criativo, "Eu Não Te Ouço" é um convite ao diálogo no país da intolerância


Márcio Vito faz ótima interpretação dos dois papéis do filme: o caminhoneiro e o patriota do caminhão
(Fotos: Amaia Distribuidora)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Certamente muitos vão se lembrar do estranhíssimo caso do manifestante que, revoltado, se agarrou a um caminhão cujo motorista se recusou a parar e se juntar a ele na tentativa de bloquear as estradas e paralisar o país. Era novembro de 2022, a eleição presidencial estava encerrada, mas parte dos brasileiros não aceitou o resultado. 

O vídeo do homem de camisa e boné amarelos se segurando de braços abertos como um Cristo à frente de um caminhão viralizou nas redes sociais e não faltaram memes do caroneiro patriota passeando pelas estradas de várias partes do mundo.

Reprodução


Foi mesmo uma sacada genial do ator e diretor Caco Ciocler, que decidiu transformar essa história bizarra em um interessante road movie, em que um motorista de caminhão e seu passageiro preso ao veículo  tentam manter alguma conversa. 

Mas por estarem separados pelo vidro, a prosa dos dois se transforma num diálogo de surdos e ninguém se entende, enquanto os temas vão além da política, passando por filosofia, Deus, o diabo, família, filosofia, escolhas, cotidiano etc etc. 

O longa "Eu Não Te Ouço", que estreia dia 14 de maio no UNA Cine Belas Artes, encerra a chamada Trilogia Política de Ciocler, que antes dirigiu "Partida" (2019) e "O Melhor Lugar do Mundo É Agora" (2021).


Outra sacada incrível de Caco Ciocler, que aliás assina também o roteiro com Isabel Teixeira e Márcio Vito, foi se colocar no filme como um documentarista. Do início ao fim, apenas por meio da sua voz, ele levanta assuntos, pergunta, provoca e instiga motorista e patriota, que expõem seus pontos de vista em monólogos entrecortados, enquanto o caminhão desliza pela rodovia, se desviando de outros veículos apressados e enfrentando os inevitáveis baques dos buracos do asfalto. 

Para falar do artista Márcio Vito é preciso um capítulo à parte. Em mais um atrevimento dos roteiristas e do diretor, a ideia de fazer com que o mesmo ator fizesse ambos os papéis, foi um acerto e tanto. E Vito se sai muito bem, intercalando o motorista e o patriota, interpretando textos que vão do cômico à reflexão séria e necessária. 


Não por acaso, ele recebeu o troféu de Melhor Ator na Mostra Novos Rumos do Festival do Rio. Mais do que merecido. O duplo papel acaba por tornar-se outra metáfora do longa, como se o filme quisesse mostrar como somos ao mesmo tempo diferentes e humanamente iguais.

Mais um acerto de "Eu Não Te Ouço": como se passa apenas e tão somente na estrada e em movimento, o barulho infernal da rodovia torna-se uma instigante trilha sonora, com suas freadas, ronco de motores e buzinas. 

Enfim, ao retomar o estranho caso do caroneiro patriota, Caco Ciocler provoca o espectador e o faz refletir sobre a falta de diálogo, a polarização nefasta e a intolerância que impera no país. Quem sabe o filme possa ser um convite a - quem sabe? - (re)construir este Brasil?


Ficha técnica:
Direção: Caco Ciocler
Roteiro: Caco Ciocler, Isabel Teixeira e Márcio Vito
Produção: AMAIA Filmes, coprodução UNO Filmes, 555 Studios e Schifiguer
Distribuição: AMAIA Distribuidora
Exibição: Una Cine Belas Artes
Duração: 1h11
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gêneros: road movie, comédia

11 maio 2026

“O Gênio do Crime”: aventura divertida aposta no carisma dos detetives mirins

Gordo, Edmundo, Pituca e Beré formam o quarteto que vai investigar a falsificação de figurinhas da
Copa do Mundo (Fotos: Pivô Audiovisual)
 
 

Maristela Bretas

 
“O Gênio do Crime”, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas, aposta na combinação de aventura, mistério, humor e amizade para conquistar o público infantojuvenil — e também os adultos que cresceram acompanhando histórias de detetives mirins. 

Adaptado da clássica obra literária de João Carlos Marinho, o longa apresenta a Turma do Gordo em uma investigação cheia de reviravoltas envolvendo a falsificação de uma figurinha rara do álbum da Copa do Mundo de 2026.


A trama acompanha João, mais conhecido como Gordo (Francisco Galvão), Edmundo (Samuel Estevam) e Pituca (Breno Kaneto), trio inseparável que ganha o reforço da inteligente e destemida Berenice, a Beré (Bella Alelaf). 

Juntos, eles tentam descobrir quem está produzindo as figurinhas falsas que ameaçam levar à falência a editora Escanteio, comandada pelo Sr. Tomé, personagem de Ailton Graça.

Na tentativa de salvar a empresa, Sr. Tomé acaba se unindo aos adolescentes, que também contam com a ajuda — nem sempre eficiente — do famoso detetive televisivo Mister Mistério, interpretado por Marcos Veras. 


Convencido de que não precisa de ninguém para solucionar casos, o personagem rende alguns dos momentos mais engraçados do filme, funcionando como um alívio cômico que conversa bem com o público infantil.

Ambientado em São Paulo, o longa segue uma linha semelhante à de “Detetives do Prédio Azul” (D.P.A.), fenômeno criado por Flávia Lins e Silva para a TV e posteriormente levado aos cinemas. Assim como na produção carioca, aqui o protagonismo infantil é o grande motor da narrativa, conduzindo uma investigação repleta de pistas, suspeitos e descobertas.


Cada integrante do grupo possui características bem definidas. Gordo é inteligente, curioso e apaixonado por histórias de investigação, especialmente pelo programa de Mister Mistério. Edmundo é o atleta da turma, fanático por futebol e figurinhas, além de ser justamente quem encontra a rara figurinha do Vini Jr., prêmio que garante assistir à final da Copa do Mundo. 

Já Pituca se destaca pelo jeito atrapalhado, carismático e sempre bem-humorado, responsável por boa parte das situações cômicas. A chegada de Beré traz equilíbrio ao grupo: ela é corajosa, observadora e rapidamente se torna peça fundamental na solução do caso.


Os jovens atores funcionam muito bem juntos. Têm naturalidade, carisma e falam diretamente com o público da mesma faixa etária, tornando crível a dinâmica dos “detetives mirins”. O filme acerta especialmente ao construir personagens que se comportam como adolescentes reais, com inseguranças, disputas, amizades e descobertas típicas da idade.

Dirigido por Lipe Binder e produzido por Tiago Mello, “O Gênio do Crime” consegue equilibrar aventura, suspense, ação e humor em um ritmo leve e acessível. 

Ao mesmo tempo, aborda temas importantes sem perder o tom divertido, como a transição da infância para a adolescência, o bullying relacionado ao peso de João, os primeiros interesses amorosos e as mudanças naturais nas amizades.


O elenco conta ainda com atores conhecidos da TV e do cinema que garantem o suporte necessário para a obra: Douglas Silva, Rafael Losso, Marcelo Goes, Fafá Rennó, Favel Andrade, Estevam Nabote, Thelmo Fernandes e Larissa Nunes.

Mesmo sendo um filme essencialmente familiar, há uma cena específica que sugere um crime que pode assustar crianças menores. Ainda assim, o saldo é bastante positivo. 

Com uma narrativa ágil, personagens simpáticos e clima de sessão da tarde, “O Gênio do Crime” tem potencial para iniciar uma nova franquia nacional voltada ao público jovem — algo raro e necessário no cinema brasileiro atual.


Ficha técnica:
Direção: Lipe Binder
Roteiro: Ana Reber
Produção: Boutique Filmes, coprodução com a Globo Filmes e Paris Entretenimento
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h30
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gêneros: aventura, ação, infantojuvenil