10 setembro 2026

"Homem-Aranha: Um Novo Dia" coloca Peter Parker diante do seu maior inimigo: a solidão

Quarto filme do super-herói amplia as conexões do personagem com outros núcleos do Universo Cinematográfico Marvel (Fotos: Sony Pictures)
 
 

Maristela Bretas


Em “Homem-Aranha: Um Novo Dia” (“Spider-Man: Brand New Day”), em cartaz nos cinemas, sob a direção de Destin Daniel Cretton, encontramos o Amigo da Vizinhança vivendo integralmente para defender Nova York. 

Quatro anos depois dos acontecimentos de “Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa” (2021), ninguém mais se lembra que ele é Peter Parker (novamente vivido por Tom Holland) — nem mesmo aqueles que mais amava.

Mas o pior para o super-herói é acompanhar de longe a vida da amada MJ (Zendaya) e do melhor amigo Ned Leeds (Jacob Batalon), que também não se lembram dele. 


Peter, agora adulto e mais maduro, tornou-se um Homem-Aranha mais experiente, sem perder o carisma e o jeito doce de bom menino que sempre o diferenciaram dos demais Vingadores.

Direcionando toda sua energia para o combate ao crime, ele passa a trabalhar ao lado da polícia e da detetive Jean DeWolff (Liza Colón-Zayas). A solidão e o afastamento das pessoas que ama, porém, começam a cobrar um preço alto.

O corpo e a mente do Homem-Aranha sofrem transformações que aumentam seus poderes, mas também provocam alterações de comportamento e agressividade, colocando em risco quem está ao seu redor. 


Tudo se complica com o surgimento de uma nova ameaça, capaz de controlar a mente das pessoas. É Jean Grey (Sadie Sink, de “Stranger Things”), uma jovem mutante com poderes que ainda não faz parte dos X-Men e sequer teve contato com o Professor Charles Xavier. 

Após um trauma familiar, ela procura respostas e acaba se tornando uma das adversárias mais perigosas já enfrentadas pelo herói.

Esse é um dos pontos positivos de “Homem-Aranha: Um Novo Dia”: o filme amplia as conexões do personagem com outros núcleos do Universo Cinematográfico Marvel. 
                      

Ao lado do Teioso aparecem Frank Castle, o Justiceiro (Jon Bernthal), Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) e Yelena Belova/Viúva Negra (Florence Pugh), que acabam se tornando importantes aliados na batalha. 

O encontro com o Justiceiro, principalmente, dá ao longa um tom mais urbano e próximo das histórias de crime que fazem parte da origem do personagem nos quadrinhos.

No elenco também estão nomes conhecidos da franquia, como Marisa Tomei, novamente como tia May; Michael Mando, como Mac Gargan/Escorpião; e Tramell Tillman, como Bill Metzger, ligado ao Departamento de Controle de Danos. 



A trilha sonora é outro destaque. Michael Giacchino, responsável pelas partituras dos três filmes anteriores de Tom Holland como Homem-Aranha, retorna com uma composição que acompanha tanto a ação quanto o momento mais solitário de Peter. 

As músicas escolhidas ajudam a criar uma identidade mais urbana e contemporânea para o longa, com nomes como Tame Impala, Bad Bunny, TV on the Radio, Chaka Khan, Cannons e Steve Lacy.

Mais que um filme de super-herói, com teias, explosões, lutas, perseguições pelas ruas de Nova York e acrobacias no ar, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” aposta no amadurecimento de Peter Parker e nas consequências de sua escolha de dedicar a vida ao combate ao crime. 


O personagem ganhou experiência, força e confiança como Homem-Aranha, mas perdeu justamente aquilo que fazia sua vida como Peter Parker valer a pena.

Em nenhum dos filmes anteriores do personagem a ideia de que "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades" parece tão presente quanto aqui. 

Peter precisa entender que ser herói não significa abrir mão de tudo que o torna humano. Por trás da máscara ainda existe um homem que sente falta de ter amigos, de amar e de ser lembrado.


E é justamente aí que Tom Holland encontra um dos melhores momentos de sua atuação como Peter Parker. Mais solitário, cansado e emocionalmente machucado, ele mostra um herói que já não precisa aprender a balançar entre os prédios, mas ainda necessita descobrir como viver sem as pessoas que perdeu. O Homem-Aranha está mais forte. Peter Parker, nem tanto.

Mesmo sabendo que não pode simplesmente voltar ao passado, o público torce para que Peter encontre novamente seu caminho até MJ e consiga recuperar a amizade com Ned. Afinal, o Homem-Aranha pode viver sozinho por algum tempo, mas Peter Parker não precisa — e talvez nem consiga — continuar assim.


Como toda boa franquia que ainda movimenta multidões, o filme deixa portas abertas para novas aventuras. Até o momento, o longa arrecadou mundialmente mais de US$ 2,4 bilhões, tornando-se a terceira maior bilheteria da história do cinema. 

A cena pós-créditos reforça a promessa de que o Homem-Aranha voltará, enquanto a presença de personagens como a Viúva Negra, Hulk, Justiceiro e Jean Grey amplia ainda mais as possibilidades para o futuro do Universo Marvel.  

O longa também prepara terreno para acontecimentos maiores, como “Vingadores: Doomsday”, com estreia em dezembro de 2026, e “Vingadores: Guerras Secretas”, previsto para dezembro de 2027. Jean Grey ainda terá participação no novo filme dos X-Men, que deverá estrear em 2028.



No fim, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” entrega aquilo que os fãs esperam — ação, humor, referências aos quadrinhos e grandes encontros —, mas ganha força justamente quando deixa as explosões de lado para mostrar a solidão de Peter. 

Porque, antes de ser um dos maiores heróis da Marvel, ele continua sendo um garoto que queria fazer a coisa certa.

Talvez esse seja o verdadeiro “novo dia” do título: não o nascimento de um novo Homem-Aranha, mas o começo de uma nova fase para Peter Parker, que finalmente precisa aprender que salvar o mundo não significa necessariamente abrir mão de ter uma vida. 

Para quem ainda não assistiu, este é um dos melhores filmes da franquia atual.


Ficha técnica:
Direção: Destin Daniel Cretton
Roteiro: Chris McKenna e Erik Sommers
Produção: Columbia Pictures, Sony Pictures Marvel Studios
Distribuição: Sony Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h30
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: ação, aventura

08 setembro 2026

“Minha Melhor Amiga": quando a amizade vira reencontro com a própria vida

Comédia nacional reúne no elenco principal as atrizes e amigas de longas datas na vida real Mônica
Martelli e Ingrid Guimarães (Fotos: Desirée do Valle)
 
 

Marcos Tadeu
Blog Jornalista de Cinema

 
O que acontece quando duas melhores amigas chegam aos 50 anos e percebem que a vida está mudando — e que talvez seja hora de mudar com ela? É a partir dessa pergunta que “Minha Melhor Amiga”, nova comédia dirigida por Susana Garcia, coloca Mônica Martelli e Ingrid Guimarães lado a lado em uma história sobre amizade, amadurecimento, maternidade e a descoberta de que nunca é tarde para recomeçar.

Distribuída pela Paris Filmes, a produção chega aos cinemas quebrando o recorde de maior abertura de um filme nacional de todos os tempos. O filme está em exibição em 1.531 telas de 773 cinemas, em 436 cidades brasileiras, superando “Minha Mãe É Uma Peça 3” (2019), segunda maior bilheteria do cinema nacional nos últimos dez anos.

Estrelado por Mônica Martelli e Ingrid Guimarães, o filme, rodado no Rio de Janeiro, Sevilha (Espanha) e Lisboa (Portugal), é dirigido por Susana Garcia, que já possui uma trajetória muito ligada à comédia brasileira e ao cinema protagonizado por mulheres.


Susana Garcia dirigiu “Minha Mãe É Uma Peça 3”, “Minha Vida em Marte” (2018), com Mônica Martelli e o falecido ator Paulo Gustavo, e “Minha Irmã e Eu” (2023), com Ingrid Guimarães e Tatá Werneck. Seus filmes anteriores somaram mais de 20 milhões de ingressos vendidos, segundo a Paris Filmes.

Na história, conhecemos Júlia (Ingrid Guimarães) e Clara (Mônica Martelli), que chegam aos 50 anos diante de uma nova fase da vida. Entre os efeitos da menopausa e a saída das filhas de casa - Manu (Giulia Benite) e Isadora (Gabi Amaral) -, as duas se encontram por acaso em um aeroporto e descobrem que as meninas estão no mesmo voo para Portugal onde farão um intercâmbio.


O encontro dá início a uma amizade inesperada. Ao viajarem para visitar as filhas, Júlia e Clara deixam a rotina de lado e se envolvem em uma série de aventuras, com viagens, festas, romances, shows e situações inusitadas. Ao longo da jornada, as duas passam a questionar escolhas, relações e a própria maneira de enxergar as filhas.

O que começa como uma viagem para acompanhar as jovens se transforma em uma oportunidade de redescobrir a própria vida e perceber que nunca é tarde para mudar os planos.

No longa, feito por mulheres para mulheres, podemos ver como o conceito de sororidade, palavra muito usada hoje em dia, cabe nessa obra de Susana Garcia. A definição está associada à ideia de irmandade entre mulheres, valorizando a cooperação, o respeito e o fortalecimento umas das outras, especialmente diante de situações de desigualdade, preconceito ou violência.


Segundo o Dicionário Michaelis, amizade é o vínculo estabelecido entre pessoas por meio de uma relação de afeição, simpatia, estima e confiança. Mais do que uma simples convivência, a amizade pressupõe proximidade, respeito, lealdade e reciprocidade, criando um laço afetivo que se constrói e se fortalece ao longo do tempo.

Isso fica claro dentro e fora da tela. Podemos ver como Mônica e Ingrid, de fato, conseguem representar esse conceito, cada uma com sua personalidade, e como as duas, juntas, em meio a tantos anos de amizade, estabelecem uma relação de respeito e simpatia.

O filme acerta ao aproximar o público de Mônica e Ingrid. A sinergia entre ambas e todas as histórias, confusões, perrengues, crises e conflitos trazem o telespectador para perto dessa amizade tão bem construída ao longo de vários anos, que vai além do roteiro do filme.


Algumas curiosidades ajudam a dar o tom da narrativa: a história nasceu da amizade real das protagonistas. Em vez de simplesmente interpretarem duas amigas, Ingrid e Mônica levaram para a ficção experiências que  efetivamente viveram juntas, como a viagem real com as filhas adolescentes pela Europa, que serviu de inspiração para a história.

Apesar de a cena da “chave não está aqui” provocar boas risadas, senti falta das filhas no carro e de como essa parte do roteiro poderia ter sido mais bem trabalhada, incluindo as jovens no perrengue das mães. Um sofrimento a quatro poderia ser mais divertido.


Conflitos emocionais

Júlia, uma jornalista, se depara com um ambiente de trabalho que descarta as mulheres mais maduras para colocar rostos jovens em suas mídias e no mercado. Ela se encontra em conflito, com medo de ficar perdida profissionalmente e também emocionalmente.

Já Clara tem uma visão bonita de um casamento que acabou há muito tempo, mas que precisa encontrar novas formas de viver a vida e de lutar pelo que acredita. Sempre fica a sensação de que ela é muito velha para viver novas experiências e de que não irá conseguir acompanhar a modernidade.

O filme talvez deixe a desejar por apenas “pincelar” vários conflitos que afetam o universo feminino no campo profissional e afetivo, como o das mães acima dos 50 anos. 


O roteiro poderia explorar mais momentos dramáticos. O que se vê, no geral, são as personagens interpretando quem são. As atrizes não precisam sair de sua zona de conforto. Não que isso seja um problema, mas não mostra nada diferente do que já vimos em seus filmes anteriores.

Mesmo com essas ressalvas, “Minha Melhor Amiga” cumpre aquilo que promete: divertir, emocionar e lembrar que a vida não termina quando os filhos crescem, quando um casamento acaba ou quando os 50 chegam. Pelo contrário. Pode ser justamente aí que começa uma nova história.

É um filme solar, leve, para sair do cinema com o coração quentinho e querendo encontrar o seu melhor amigo ou amiga. Porque amizade verdadeira é isso: estar ao lado nos melhores momentos, dividir as confusões, enfrentar os perrengues e, principalmente, lembrar ao outro que nunca é tarde para viver aquilo que ainda falta. 

As diferenças e os embates só reforçam esse laço que podemos levar para o resto da vida, para o que der e vier.


Ficha técnica:
Direção: Susana Garcia
Produção: Paris Entretenimento
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h58
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gênero: comédia