17 julho 2026

Após 50 anos, "Xica da Silva" volta às telas em versão restaurada

Obra dirigida por Cacá Diegues que consagrou Zezé Motta é relançada nos cinemas de mais de 23 cidades brasileiras (Fotos: Divulgação)
 
 

Patrícia Cassese

 
É sempre uma boa notícia quando um título icônico da cinematografia brasileira volta em cartaz com cópia restaurada. O exemplo da vez é “Xica da Silva”, um clássico. Dirigido por Cacá Diegues, com Zezé Motta no papel da mítica personagem, o filme - lançado em 1976 – foi, conforme informam os créditos iniciais deste relançamento, restaurado digitalmente em resolução 4K.

Vinte e três cidades brasileiras vão exibir esta versão remasterizada. O filme poderá ser conferido em BH nas salas do Cine Belas Artes e do Centro Cultural Unimed-BH Minas.


Dentro da diretriz de evitar a manipulação dos materiais originais em película, o processo utilizou arquivos digitais. Sendo esses provenientes do escaneamento do negativo original de imagem em 35mm, que, informa a produção, à época do processamento, apresentava sujeiras, fungos e rasgos de todos os rolos. Os louros da iniciativa cabem à Sessão Vitrine Petrobrás.

Detalhes técnicos à parte, o filme é daqueles que dispensam muitas apresentações, principalmente aqui, em Minas, visto se tratar de uma história hoje bastante conhecida (ainda que apontamentos vejam graves distorções no retratamento dessa mulher, filha de um homem branco de origem portuguesa e uma africana), ambientada na segunda metade do século XVIII, nas proximidades do Arraial do Tijuco – hoje, Diamantina. 


O ponto de partida é a chegada, na região, de João Fernandes de Oliveira (Walmor Chagas), novo contratador de diamantes nomeado pelo regente, preocupado com possíveis desvios na extração do ouro e de diamantes em plagas locais.

Não demora e o contratador é impactado pela beleza e sensualidade da figura da escrava Xica da Silva – sim, você sabe, vivida pela diva Zezé Motta -, a ponto de logo querer comprá-la. Os dois se tornam publicamente amantes, desafiando o tradicionalismo e o preconceito vigente à época. 

Obstinado, João Fernandes não poupa esforços para satisfazer os caprichos da sedutora moça, a começar por lhe conceder a almejada carta de alforria – o que, vale dizer, não permite a Xica da Silva o livre acesso a todos os lugares frequentados pela elite branca. 


Mais que isso, o contratador manda trazer perucas e tecidos dos mais caros para Xica da Silva, além de emular um mar, para que ela, assim, possa ter a sensação de uma viagem de barco.

Em se tratando de um filme feito há 50 anos, naturalmente alguns aspectos certamente vão provocar uma certa estranheza, mesmo para aqueles que o revisitaram mais amiúde. É pertinente supor que, se fosse filmado hoje, o próprio tom interpretativo dos atores seria distinto – mesmo lembrando que Diegues optou por um tom farsesco. 

Portanto, é necessário pensar “Xica da Silva” como um documento importante da produção cinematográfica brasileira dos anos 1970, em tempos nos quais os recursos eram – óbvio – mais limitados. 


Um documento, que, por seu turno, se empenha em flagrar um período extremamente doloroso da história brasileira, o da escravidão, quando seres humanos violentamente tirados de seus países de origem eram separados de suas famílias e trazidos em condições sub-humanas para o Brasil, sendo comercializados, escravizados e, diante de patrões contrariados, submetidos a rituais de tortura inenarráveis, alguns dos quais aparecem sublinhados na tela, numa representação que busca explicitar – para o público de 1976, assim como para o de agora - o horror.

Por outro lado, a ambição da escrava que usa de sua sexualidade para catapultar sua posição na sociedade incomoda bastante, principalmente por, de acordo com alguns historiadores, não corresponder aos fatos. Aqui, não cabe estender no quesito figura histórica X personagem tecida pelo imaginário, embora uma pesquisa aprofundada em sites confiáveis possa ser proveitosa. 


A própria historiadora e escritora Mary del Priore lançou, este ano, pela Editora José Olympio, obra no qual desmonta a imagem hiper sexualizada de Xica da Silva: “Meu Nome é Francisca: Uma História de Chica da Silva” (em tempo: a grafia com ch é considerada historicamente como a correta).

Com o olhar de que a história real não corresponde ao mito, o espectador, pois, pode rever o filme atentando-se para o talento incontestável de Zezé Motta, aproveitando para rever grandes atores que já partiram, como José Wilker e Walmor Chagas – para não falar da presença em cena de Elke Maravilha, linda. Além de relembrar uma das grandes produções de Cacá Diegues, falecido em 2025.

Como assinalamos, é um filme icônico, um documento. E que bom, então, que volta em cartaz nos cinemas marcando a importância da preservação da memória.


Ficha técnica:
Direção: Cacá Diegues
Roteiro: Cacá Diegues e João Felício dos Sanros
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cine Belas Artes e Centro Cultural Unimed-BH Minas
Duração: 1h47
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Ano: 1976 (RELANÇAMENTO)
Gêneros: comédia, história


16 julho 2026

"A Odisseia": Christopher Nolan transforma um clássico em um espetáculo monumental

Diretor supera os próprios limites em seu filme mais grandioso, gravado em seis países, totalmente em
IMAX (Fotos: Universal Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Christopher Nolan reúne novamente um elenco estelar para entregar uma obra épica em todos os sentidos: duração, elenco, efeitos visuais e, ainda, o fato de ser o primeiro longa-metragem totalmente filmado em IMAX 15/65 mm.

Falo de “A Odisseia” (“The Odyssey”), em cartaz nos cinemas a partir desta quinta-feira. O diretor e roteirista de sucessos como "Oppenheimer" (2023), "Dunkirk" (2017), "Interestelar" (2014) e "Batman – O Cavaleiro das Trevas" (2008) mostra, mais uma vez, que consegue se superar a cada nova produção.

“A Odisseia” é um espetáculo visual e sonoro que prende o público do início ao fim, mesmo com quase três horas de duração. O IMAX é utilizado com maestria por Nolan, que prometeu recorrer minimamente à Inteligência Artificial — algo que, ao que tudo indica, foi cumprido. 


O filme, escrito e dirigido por Nolan, é baseado no poema épico da Antiguidade atribuído ao poeta grego Homero. O diretor segue de perto a narrativa original, alternando a trajetória de Odisseu e suas aventuras com a vida de Penélope e Telêmaco, que permanecem em Ítaca à espera de seu retorno.

Além da imponência visual, Nolan demonstra grande cuidado na construção de uma narrativa envolvente. Mesmo quem não conhece esse clássico da literatura consegue acompanhar o enredo sem dificuldade, já que as experiências dos personagens vão se encaixando como peças de um quebra-cabeça até a conclusão da história.


Matt Damon, em ótima atuação, interpreta o rei grego Odisseu (ou Ulisses, nome dado pelos romanos), comandante do grupo de soldados que utiliza o gigantesco cavalo de madeira para entrar em Troia e destruir a cidade e seu exército.

A trama começa após essa vitória e acompanha a longa jornada de Odisseu e seus homens para retornar à ilha de Ítaca e reencontrar suas famílias depois de 20 anos afastados — dez deles lutando na Guerra de Troia e o restante tentando voltar para casa.

É uma jornada marcada por novas batalhas contra criaturas da mitologia grega, como o ciclope Polifemo, filho de Poseidon; a feiticeira Circe (Samantha Morton, grande destaque do filme), que transforma humanos em animais; as sereias; e a misteriosa Calipso (Charlize Theron, que poderia ter sido melhor aproveitada).


Odisseu está disposto a enfrentar tudo isso para reencontrar a esposa Penélope (Anne Hathaway) e o filho Telêmaco (Tom Holland), que nunca conheceu. Também precisa recuperar seu trono, cobiçado por dezenas de pretendentes vindos de toda a Grécia, entre eles Antínoo (Robert Pattinson), decidido a se casar com a rainha e ocupar o poder.

O elenco de peso conta ainda com Zendaya (Athena), Elliot Page (Sinon), Jon Bernthal (Menelau), Lupita Nyong’o (Helena de Troia), Bill Irwin (voz do ciclope Polifemo), Mia Goth (Melanto), Himesh Patel (Euríloco), Ben Safdie (Agamenon) e John Leguizamo (o servo cego Eumeu), entre outros.


Não espere, porém, um filme sentimental. Pelo contrário: Nolan expõe a frieza humana tanto nas batalhas campais quanto nas ações dos personagens, levando até mesmo o herói a questionar seus princípios e o sentido da guerra diante de tanta crueldade.

Se a narrativa impressiona, o trabalho técnico eleva ainda mais o filme. A fotografia de Hoyte van Hoytema aproveita ao máximo o formato IMAX para criar imagens de impacto, explorando a beleza das locações e a imponência das batalhas. 

A trilha sonora de Ludwig Göransson confere emoção e intensidade na medida certa, enquanto a montagem mantém o ritmo fluido mesmo em uma produção de quase três horas. 


O desenho de som, aliado aos efeitos visuais discretos e ao uso predominante de recursos práticos, faz com que o espectador se sinta dentro da jornada de Odisseu, transformando a sessão em uma experiência cinematográfica envolvente.

Com orçamento estimado em US$ 250 milhões e filmagens realizadas em seis países — Marrocos (que representa Troia), Grécia, Islândia (o submundo de Hades), Escócia, Itália (palco da ilha de Ítaca) e Estados Unidos —, “A Odisseia” é uma obra cinematográfica monumental e ambiciosa, à altura do próprio Christopher Nolan, e merece ser vista em IMAX.

Uma coisa é certa: o longa entra desde já como fortíssimo candidato a várias estatuetas do Oscar 2027.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Christopher Nolan
Produção: Universal Pictures, Syncopy
Distribuição: Universal Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h52
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ação, aventura, fantasia