01 outubro 2026

“Digger”: Tom Cruise irreconhecível em uma sátira provocadora contra os poderosos

Ator interpreta um bilionário do setor petrolífero responsável por um gigantesco acidente ambiental
(Fotos: Warner Bros. Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Estreia nesta quinta-feira nos cinemas “Digger”, que tem Tom Cruise como principal estrela e já está gerando muita polêmica entre críticos e pessoas que assistiram ao longa-metragem pelo mundo. A narrativa satírica pós-apocalíptica é diferente, pode até parecer estranha em algumas partes, mas é audaciosa e envolvente como um todo.

Especialmente pelas excelentes atuações do elenco, a começar por Tom Cruise, no papel principal. A produção, dirigida pelo premiado Alejandro González Iñárritu, responsável por sucessos como “Birdman” (2014) e “O Regresso” (2015), satiriza o mundo dos poderosos.


Toma como exemplo o setor petrolífero, mas poderia ser qualquer representante do poder econômico, cujo descaso nas decisões e a exploração desmedida da natureza, com a certeza de que sempre estarão livres das consequências, são comportamentos comuns.

Os personagens são caricatos, como o próprio Digger, interpretado brilhantemente por Tom Cruise, assim como Compson, presidente dos EUA, vivido por John Goodman; seu vice, papel de Michael Stuhlbarg; e os militares integrantes do gabinete da crise, interpretados por Robert John Burke e Burn Gorman.


Digger Rockwell (Tom Cruise) é um bilionário do setor petrolífero e de minerais que herdou os negócios da família e se acha acima de tudo e de todos. Um acidente de proporções catastróficas coloca vários países da Europa em risco, assim como os negócios das empresas Rockwell e a credibilidade dos EUA. 

Determinado a provar que é o salvador da humanidade, ele embarca em uma missão frenética para evitar que o desastre que ele mesmo desencadeou destrua tudo.

Poderia ser uma história comum, mas o tom satírico adotado pelo diretor Alejandro González Iñárritu acaba virando o jogo, transformando o longa em uma produção envolvente. Não vou contar mais para não dar spoiler. Mas essa forma de narrativa tem provocado debates entre aqueles que gostaram da abordagem e do conjunto da obra e os que detestaram, considerando o filme ruim, confuso e até desnecessário.


Tom Cruise está irreconhecível, envelhecido e adotando um estilo cowboy, com um terno vinho e chapéu, imitando pistoleiros do Velho Oeste, ou usando pijama enquanto planeja a próxima ação para ter aumentar os lucros. 

Digger é um homem de poucos escrúpulos, mas demonstra um lado emotivo quando está com sua preciosa companheira Maggie, uma gata idosa e doente, prestes a morrer.

O ator saiu de sua zona de conforto da franquia “Missão: Impossível” para apostar em mais uma comédia satírica — a primeira foi “Trovão Tropical” (2008) — e acertou muito bem. É uma atuação digna de disputar um Oscar.


Destaque também para o premiado Riz Ahmed, com ótima interpretação do Dr. Ganesh, especialista ambiental das empresas Rockwell. Apesar de ser uma pessoa de conhecimento avançado em sua área e de discordar das decisões do patrão, ele segue o que lhe é mandado para não desagradar quem paga seu salário.

Ahmed é ganhador do Oscar de 2022 como Melhor Curta-Metragem de Live-Action "O Longo Adeus”, que ele escreveu e estrelou. O ator rouba as cenas, inclusive as que faz com Tom Cruise, e mostra uma boa sintonia com o ator.


O mesmo acontece com John Goodman, cujo papel lembra bastante o perfil de presidentes dos EUA por suas decisões armamentistas e religiosas e pela postura de descaso com a população, especialmente a de outros países. 

No elenco temos ainda a também indicada ao Oscar Sandra Hüller, como Emma, irmã de Digger, com boa atuação, e Jesse Plemons, em uma participação que completa a trama.

“Digger” tem ainda, na maquiagem (especialmente a de Tom Cruise) e na trilha sonora de Cosmo Sheldrake, um dos elementos positivos impossíveis de ignorar. As músicas são impactantes e abraçam as imagens, dando mais vida e vigor às cenas. 


Outro destaque é a fotografia de Emmanuel Lubezki, que adota cores pastéis na maior parte da trama e da vida do protagonista, dando o tom envelhecido que o roteiro precisa para ambientar a história, como se fosse um clássico dos anos 1950. Os enquadramentos com muitos closes dos personagens e cenas de baixo para cima reforçam as ações e até a superioridade de alguns personagens.

Filmado inteiramente em VistaVision, o longa-metragem está disponível nos cinemas nos formatos IMAX, XD, D-Box e 2D, além de contar com acessibilidade, em versões dubladas e legendadas.

Mas, como uma boa história, “Digger” é uma comédia satírica com uma reviravolta surpreendente. A mensagem do filme é um tapa na cara da sociedade ao escancarar algo que todos sabem e fingem que não acontece porque não interessa mudar a realidade. Mesmo que isso coloque a humanidade em risco.


Ficha técnica:
Direção: Alejandro González Iñárritu
Roteiro: Alejandro González Iñárritu, coescrito com Alexander Dinelaris & Nicolás Giacobone, e Sabina Berman
Produção: Legendary Pictures, Warner Bros Pictures, M Productions e TC Productions
Distribuição: Warner Bros Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h07
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ficção, comédia, drama

28 setembro 2026

“A Queda 2” desafia a gravidade — e a paciência do espectador

Dupla de amigas se aventura em atravessar uma perigosa passarela suspensa na Tailândia a 3 mil
metros de altitude (Fotos: Paris Filmes)
 
 

Maristela Bretas

 
Apesar de ser angustiante do início ao fim, o que incomoda mesmo em “A Queda 2: No Limite” (“Fall 2: Deadpoint”) são as decisões estúpidas quando o assunto é correr riscos desnecessários por motivações pessoais. Continuação de “A Queda”, de 2022, o longa aposta novamente em situações extremas, mas exagera na dose ao construir suas personagens.

Assim como no primeiro filme, Jonathan Frank e Scott Mann assinam o roteiro, enquanto a direção desta vez fica por conta dos irmãos Michael e Peter Spierig. A estreia está prevista para esta quinta-feira nos cinemas, com distribuição da Paris Filmes.


As cenas de perigo, favorecidas por uma ótima fotografia, são tão tensas que chegam a dar “gastura” e revolta em quem está assistindo. Impossível não se perguntar como alguém se propõe a entrar em uma aventura como esta. No caso deste longa, assim como no anterior, eu chamaria de burrice.

Jax Hunter (Harriet Slater) está de luto pela morte da irmã Shiloh, personagem do primeiro filme. Apesar de ser uma jovem que não gosta de se arriscar, ela se une a Luce (Arsema Thomas), uma antiga amiga da irmã, para atravessar a perigosa passarela suspensa do Monte Kwan, na Tailândia. 

O objetivo é chegar até uma estátua de dragão cuja lenda diz ser capaz de devorar os medos de quem a encontra.


O problema é que a dupla acaba presa em uma estreita prancha, a mais de 3 mil metros de altitude, após um deslizamento de rochas. Separadas de seu guia, o misterioso Jon (Tom Brittney), resta a Jax enfrentar seus medos para sobreviver e ajudar a amiga.

As decisões e atitudes da dupla amadora aventureira beiram o absurdo. Por mais que sejam alertadas, elas insistem em continuar a jornada insana. 

Em alguns momentos, chega a dar raiva das protagonistas. E os roteiristas ainda deixam de lado questões básicas, as jovens não sentem fome, sede e cansaço, mesmo depois de três dias penduradas na montanha.


Pelo contrário, elas ainda encontram forças — e põe força nisso — para fazer malabarismos a 3 mil metros de altitude. Também conseguem dormir tranquilamente em uma prancha de uns 50 centímetros de largura (estou chutando o tamanho). Os roteiristas exageraram na dose.

Há ainda uma cena de Jax na ponte, nos momentos finais do filme, que os diretores simplesmente eliminaram e que poderia ter sido bem explorada. De repente, a protagonista já está em outro cenário, deixando para o espectador imaginar o que aconteceu.



Em compensação, os cenários abertos são muito bem explorados pela fotografia, assim como o som, especialmente o das rochas caindo, da prancha ruindo e das correntes se movimentando. Ponto positivo também para as atuações de Harriet Slater e Arsema Thomas. Já Tom Brittney entrega um papel bem canastrão.

“A Queda 2: No Limite”, no fim, é uma repetição de seu antecessor, com mais efeitos gráficos e decisões ainda mais irritantes. E, para completar, o final já abre caminho para um terceiro longa-metragem. Aguardemos. Tomara que seja melhor e consiga recuperar a força do primeiro.


Ficha técnica:
Direção:
Michael e Peter Spierig
Roteiro: Jonathan Frank e Scott Mann
Produção: Capston Pictures e Frawless
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h40
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: suspense, ação, aventura