10 junho 2026

O Som do Perigo: quando o jazz encontra o crime em "O Afinador"

Leo Woodall é um talentoso afinador de pianos que descobre outra utilização mais rentável para suas habilidades (Fotos: Paris Filmes)
 
 

Maristela Bretas

 
"O Afinador" ("Tuner") é um filme envolvente sobre um jovem que, devido a uma grave deficiência auditiva, vê o sonho de seguir carreira como pianista ser interrompido. Sem abandonar completamente a música, ele transforma seu talento em uma nova profissão: a de afinador de pianos. O longa estreia nesta quinta-feira nas salas Cineart Ponteio e Del Rey.

Interpretado por Leo Woodall, Niki White é um protagonista carismático e complexo. Mas quem realmente domina as cenas sempre que aparece é Dustin Hoffman, no papel de Harry Horowitz, um renomado ex-pianista e mentor do jovem. 


A química entre os dois funciona perfeitamente. Hoffman traz um humor ácido e afiado ao personagem, enquanto Woodall entrega uma atuação sensível, especialmente nos momentos em que a dor e o desconforto causados pelos sons intensos evidenciam a condição auditiva de Niki.

O trabalho sonoro é um dos grandes trunfos do longa. O diretor utiliza os sons — e até a ausência deles — para ampliar a tensão, intensificando cenas de suspense e ação que mantêm o público constantemente atento.


A rotina da dupla consiste em afinar pianos para clientes ricos e influentes, até que uma situação inesperada leva Niki a descobrir uma habilidade bastante incomum: sua audição diferenciada o torna capaz de ouvir os mecanismos internos de cofres e ajudar a abri-los. 

O talento chama a atenção de uma quadrilha especializada em invadir mansões de luxo, liderada por Uri (Lior Raz), que rapidamente o recruta para o grupo.


A trama lembra, em alguns aspectos, "Em Ritmo de Fuga" (2017), de Edgar Wright. Assim como o personagem de Ansel Elgort naquele filme, Niki também convive com limitações auditivas, mas transforma essa condição em uma habilidade excepcional dentro de um universo criminal.

Em paralelo, Niki conhece Ruthie (Havana Rose Liu), uma estudante de composição musical que o faz descobrir o amor. Mas sua nova vida dupla acabará colocando em risco não apenas seu futuro, mas também todas as pessoas que ama.


Dirigido por Daniel Roher, que assina o roteiro ao lado de Robert Ramsey, "O Afinador" mistura suspense, romance e drama em uma narrativa eficiente, ainda que siga caminhos já conhecidos. O resultado é um entretenimento bem construído, impulsionado por uma excelente trilha sonora que certamente agradará aos amantes da música.

E os fãs de jazz têm um motivo extra para prestar atenção: o lendário pianista e tecladista Herbie Hancock faz uma rápida, mas especial, participação no filme. Também fazem parte do elenco, Tovah Feldshuh (esposa de Harry) e Jean Reno em uma aparição importante.

"O Afinador" passou por importantes festivais internacionais entre 2025 e 2026, incluindo Sundance, TIFF Toronto International Film Festival, BFI London Film Festival e Telluride Film Festival, consolidando sua trajetória antes de chegar ao público.


Ficha técnica:
Direção: Daniel Roher
Roteiro: Daniel Roher e Robert Ramsey
Produção: Black Bear
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: salas Cineart Ponteio e Del Rey
Duração: 1h49
Classificação: 16 anos
País: Canadá
Gêneros: romance, suspense, drama, ação

09 junho 2026

Uma "BuenosAires" muito particular - e encantadora

Município pernambucano tem tantas peculiaridades que acabou virando tema de um documentário
(Fotos: Garimpo Filmes e Divulgação)
 
 

Patrícia Cassese

 
Na cidade de Buenos Aires, apenas um habitante nasceu de fato na Argentina. Não, você não leu errado. Ocorre que a "BuenosAires" à qual estamos nos referindo não é a capital do país vizinho, mas, sim, uma cidade localizada no interior de Pernambuco – precisamente, na Zona da Mata norte do estado, a cerca de 80 km do Recife. 

Na verdade, enquanto povoado, o local atendia pelo nome de Jacu, mas, em 1928, com a elevação do status para vila, virou Buenos Aires. Hoje com cerca de 13 mil habitantes, o município pernambucano tem tantas peculiaridades que acabou virando tema de um documentário – que, aliás, estreia no Cine Belas Artes BH neste 11 de junho. 


Dirigido pela cineasta Tuca Siqueira, “BuenosAires” apresenta ao espectador, por meio de uma professora de espanhol (que ministra aulas gratuitas para poucos alunos), o universo rico e deleitante desse lugar tão fora da curva, no qual, para citar um pequeno exemplo, há que mulheres empenhadas em se aperfeiçoar no preparo das empanadas (iguaria típica da Argentina e outros países platinos), para venda. 

Ou, ainda, quem tente reproduzir as casinhas coloridas características do Caminito, em La Boca, ponto turístico obrigatório para quem vai à Buenos Aires argentina (pelo menos na primeira visita). 

Há também o morador – Luzivaldo – que, enquanto fã de carteirinha do lendário jogador que hoje atua no Inter Miami, colocou o nome de Lionel em seu filho mais novo. 

No documentário, Janaína, a mãe do garoto, inclusive assume o arrependimento de não ter atendido ao desejo inicial do marido, que era registrar o rebento como Lionel Messi. Em tempo: um dos sonhos não realizados de Luzivaldo era morar na Argentina.


O futebol também é responsável pelo clima de frenesi que toma conta dos habitantes às vésperas do “clássico” Penãrol X Boca Juniors (não os originais, claro, mas os locais, homônimos ao time uruguaio e ao argentino). No alto falante, anuncia-se uma promoção de camisas da seleção argentina, assim como da brasileira, na loja Zé Paulo Variedades. 

Este comércio, vale dizer, é comandado por um ex-jogador (sim, óbvio, o Zé Paulo) que, apaixonado pelo Boca Juniors, criou o clube homônimo no sertão pernambucano, onde atua como preparador, técnico e massagista, além de também entrar no campo. Sua esquadra enfrenta times como o River Plate da Paraíba ou o já citado Penãrol pernambucano.


Em uma cena, jovens da Buenos Aires brasileira comentam, em tom de crítica, o fato de, por conta do nome da cidade, muitos habitantes do município torcerem entusiasticamente pela seleção argentina, e não pela brasileira, o que seria mais natural. 

Parênteses: isso porque as imagens de “BuenosAires” foram captadas em 2022, ano do Mundial, que, ao fim, foi vencido pelo país banhado pelo Rio da Prata, no confronto com a França. 

Outro momento do longa, mais uma vez ligado ao futebol, mostra torcedores vestidos com a camisa oficial do time azul e branco cantando: “Eu... sou argentino/com muito orgulho/com muito amor”. 

Ah, sim... A cidade pernambucana também tem um La Bombonera, que ostenta, na entrada, uma estátua de Maradona, assim como, nos muros que o delimitam, pinturas retratando ídolos como Messi ou Tévez. 


Para além das semelhanças com a capital argentina, “BuenosAires” também mostra outras características da cidade pernambucana, como o sósia de Roberto Carlos ou a rotina dos que trabalham na colheita da cana de açúcar. 

Mas mesmo aí a adoração pela seleção argentina se infiltra, como na figura de Catita, trabalhador que acorda às quatro da manhã para garantir o futuro da família, e que aparece na telona com a camisa da seleção argentina. 

Não só. Até a tradição cultural mais importante da cidade, o maracatu, surge maculada pela paixão pela bola em campo. Um contraponto é o patriótico Biart, escultor de figuras sacras (lindíssimas), que, lá atrás, sonhou em ser famoso com sua faceta cantor/compositor de rock e reggae – uma de suas músicas, aliás, está presente na trilha. 


Em um momento divertido, o doc fala de uma marcante semelhança entre as duas cidades: a presença incômoda dos mosquitos. Quem levanta o fato é o argentino citado no início da matéria, Leonardo, nascido em La Pampa, mas criado em Bariloche (não por outro motivo, o moço penou para se adaptar ao clima da sua nova morada, dividida com Josi, a “Gringa”). 

Programador de software, ele hoje é profundo conhecedor da história local e sonha em criar o Museu dos Engenhos. A câmera o flagra com seu detector de metais a procurar moedas no solo árido.


O cemitério da cidade (e seus túmulos singelos, pintados com afinco), a agremiação que faz bonito no Carnaval pernambucano, a alegria que emerge em meio às despretensiosas conversas cotidianas nas calçadas (para as quais as cadeiras são trazidas no interior das casas e instaladas nas calçadas, a fanfarra que motiva os jovens a ensaiarem coreografias, exibidas de forma empenhada... 

Outros pontos se incumbem de delinear de forma mais precisa o dia a dia dessa cidade que, ao fim, deixa no espectador a vontade sincera de conhecê-la. E o desenlace não poderia ser embalado por outra música que não a de Biart: “Na velha cidade da lua/na velocidade da luz/você é a nave que me conduz/e no balanço do reggae eu chego lá”. Ou, quizá, no balanço do tango, do maracatu...


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Tuca Siqueira
Produção: Garimpo Filmes
Distribuição: ArtHouse Distribuidora
Exibição: Cine Belas Artes BH
Duração: 1h10
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gênero: documentário