23 julho 2026

Cine Humberto Mauro realiza mostra com a filmografia completa de Akira Kurosawa até 16 de agosto

Retrospectiva exibe 30 longas e conta com sessões comentadas por especialistas (Crédito: Akira Kurosawa)
 
 

Da Redação

 
O Cine Humberto Mauro realiza mostra dedicada a exibir a filmografia completa de Akira Kurosawa (1910-1998), considerado um dos principais cineastas do Japão. 

A programação inclui sessões comentadas por especialistas e 30 filmes emblemáticos do realizador, como “Rashomon”, (1950), “Os Sete Samurais” (1954), “Trono Manchado de Sangue” (1957), “Dersu Uzala” (1975) e “Ran” (1985), formando um panorama da carreira de Kurosawa ao longo de seis décadas e de séculos da história japonesa. 

A mostra segue até o dia 16 de agosto, com entrada gratuita, sendo a retirada de ingressos antecipados na plataforma Sympla; e  a partir de 1 hora antes de cada exibição, na bilheteria principal do Palácio das Artes.

(Dersu Uzala)

A mostra começou no dia 16 de julho com uma exibição do filme “A Fortaleza Escondida” (1958), épico de aventura, ação, drama e humor que se Inspira nos faroestes do diretor hollywoodiano John Ford. Logo depois,  houve a abertura oficial com uma apresentação de Taiko com o Grupo Raiki Daiko, nos jardins internos do Palácio das Artes. 

A noite se encerrou com a sessão de “Yojimbo, o Guarda-Costas” (1961), seguida por comentário do professor e pesquisador José Ricardo Miranda Júnior – haverá tradução simultânea para a Língua Brasileira de Sinais. 

"Yojimbo, o Guarda-Costas"

A mostra segue com mais sessões comentadas, oferecendo ao público a oportunidade de aprofundar o diálogo com os filmes ao explorar aspectos históricos, estéticos e temáticos que ajudam a iluminar a riqueza da obra de Kurosawa. 

Nesta segunda semana da mostra, no dia 24 de julho (sexta-feira), às 18h30, “O Idiota” (1951) será comentado pelo crítico e pesquisador João Paulo Campos. 

Dia 28 (terça-feira), às 19h, a curadora Layla Braz conversa com o público sobre “Não Lamento Minha Juventude” (1946). Fechando as sessões comentadas, o cineasta Affonso Uchoa participa da exibição de “Dodeskaden - O Caminho da Vida” (1970), às 16h do dia 1º de agosto (sábado).

“Dodeskaden - O Caminho da Vida”

Cineasta inspirador

Com curadoria de Vitor Miranda, programador do Cine Humberto Mauro, a mostra propõe uma aproximação com a obra de Akira Kurosawa a partir de suas múltiplas dimensões: sua relação com a cultura japonesa, sua inventividade formal e sua capacidade de transformar questões humanas específicas de seu país de origem – moral, honra, poder, memória, justiça, violência e responsabilidade coletiva – em experiências cinematográficas de alcance universal. 

Considerado um dos diretores mais influentes da história do cinema, Akira Kurosawa nasceu em Tóquio e viveu uma trajetória que acompanhou o surgimento e a consagração do cinema como forma de arte. 

"O Idiota"

Durante sua infância, o pai levava a família ao cinema para assistir a filmes internacionais, e seu irmão mais velho, Heigo, tornou-se um benshi — narrador que acompanhava ao vivo a exibição de filmes mudos —, com a companhia frequente de Akira. 

Após um período atuando como pintor, ativista e entusiasta da literatura no grupo clandestino Liga dos Artistas Proletários, Kurosawa respondeu, em 1936, a um anúncio de vagas para assistentes de direção no estúdio P.C.L. Film Studios. 

"Não Lamento Minha Juventude"

Lá, trabalhou como aprendiz por sete anos sob a tutela do cineasta Kajiro Yamamoto antes de dirigir seu primeiro longa-metragem, “A Saga do Judô” (1943), aos 33 anos. 

Inspirando-se no teatro, em suas obras favoritas da literatura japonesa e internacional e em cineastas como Sergei Eisenstein, D.W. Griffith e Abel Gance, Kurosawa fundiu essas influências na criação de uma linguagem cinematográfica autoral que seria desenvolvida até seu último filme, a comédia dramática “Madadayo” (1993), lançado quando o cineasta tinha 83 anos.

"Os Sete Samurais"

Arte marcial japonesa

Impulsionado pelo interesse no kendo – arte marcial tradicional japonesa de combate com a espada – durante a infância e pelas conexões familiares de seu pai com samurais reais, Kurosawa destacou-se no gênero jidai-geki com alguns dos épicos de samurai mais reverenciados de todos os tempos — histórias ambientadas no Japão feudal e diversos outros períodos. 

Ele aplicou o mesmo virtuosismo visual e a narrativa de grande proporção aos seus dramas contemporâneos – gênero gendai-geki –, incluindo “O Anjo Embriagado” (1948) e “Viver” (1952).

"Trono Manchado de Sangue"

Fonte de inspiração para diversos cineastas ocidentais, como Sidney Lumet, Sam Peckinpah, Sergio Leone, Spike Lee e George Lucas – que bebeu de “A Fortaleza Escondida” para criar “Star Wars” (1977) –, Kurosawa está presente também em uma das animações mais queridas de todos os tempos – “Vida de Inseto”, dirigida por John Lasseter e produzida pela Pixar, que tomou emprestada a trama de “Os Sete Samurais”.

A primeira fase significativa da carreira do diretor ocorreu no pós-Segunda Guerra Mundial com “O Anjo Embriagado” e “Cão Danado”, filmes noir que inauguraram sua longa colaboração com o ator Toshiro Mifune – parceiros em 16 filmes no total. 

"A Fortaleza Escondida"

No início da década de 1950, Kurosawa alcançou fama mundial com “Rashomon”, um marco na narrativa não-linear que despertou o interesse internacional pelo cinema japonês. 

Nos anos seguintes, ele manteve um diálogo frutífero com o Ocidente, inspirando-se em autores canônicos como Shakespeare e Dostoiévski, mas também em escritores contemporâneos como Dashiell Hammett. 

Na década de 1960, Kurosawa mudou o foco para obras mais sombrias e pessimistas, situadas no ambiente urbano, como “Céu e Inferno” (1963) e “O Barba Ruiva” (1965), que encerraram sua colaboração com Mifune. 

Nos anos 1970, ele enfrenta uma crise, com a fraca bilheteria de “Dodeskaden - O Caminho da Vida”. Porém, é premiado com o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira por “Dersu Uzala” (que Kurosawa já havia ganho por “Rashomon”), feito em parceria com a produtora soviética Mosfilm. 

“Rashomon”

Na década de 80, com o apoio dos cineastas estadunidenses George Lucas e Francis Ford Coppola, o diretor segue com obras internacionalmente reconhecidas, centrados na queda de figuras heroicas e poderosas, como “Kagemusha, a Sombra de um Samurai” (1980), ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes, e Ran – indicado aos Oscars de Melhor Direção, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte, e vencedor do Oscar de Melhor Figurino.  

Nos anos 90, o cineasta encerra a carreira com “Sonhos” (1990), “Rapsódia em Agosto” (1991) e “Madadayo” — obras contemplativas que fazem um uso tido como visionário das cores. 

"Sonhos"

A programação inclui ainda a exibição do documentário “Uma Mensagem de Kurosawa” (2000), de Hisao Kurosawa, filho do cineasta. A obra revisita a trajetória do realizador por meio de imagens de arquivo, depoimentos e reflexões sobre seu processo criativo.

Com uma filmografia marcada por sequências de ação cuidadosamente coreografadas e uso dramático do clima, Kurosawa foi influenciado e inspirou, em um processo recíproco, o cinema ocidental. 

Mas ele é também lembrado por colocar tais elementos a serviço de uma constante investigação da condição humana, o que o torna parte de uma linhagem de cineastas humanistas que encontraram no cinema uma maneira de observar o mundo e compreender as complexidades da experiência humana.

"Ran"

SERVIÇO:
Data: até 16 de agosto
Local: Cine Humberto Mauro – Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1537, Centro – Belo Horizonte)
Classificações indicativas: variáveis
Programação completa no site: www.cinehumbertomauromais.com/programacao
Entrada: gratuita; 50% dos ingressos estarão disponíveis, de forma on-line, a partir do meio-dia da data das sessões, na plataforma Sympla; o restante será distribuído presencialmente na bilheteria principal do Palácio das Artes e nos totens, a partir de 1 hora antes de cada exibição.
Sessão da Meia-Noite: acontece mensalmente, em exibição única, na madrugada de sexta-feira para sábado. Para essa sessão, metade dos ingressos estará disponível de forma on-line a partir das 18h do dia da sessão, pela plataforma Sympla. O restante ficará disponível no Totem de Autoatendimento localizado no hall do Cine Humberto Mauro - uma hora antes da sessão. 

17 julho 2026

Após 50 anos, "Xica da Silva" volta às telas em versão restaurada

Obra dirigida por Cacá Diegues que consagrou Zezé Motta é relançada nos cinemas de mais de 23 cidades brasileiras (Fotos: Divulgação)
 
 

Patrícia Cassese

 
É sempre uma boa notícia quando um título icônico da cinematografia brasileira volta em cartaz com cópia restaurada. O exemplo da vez é “Xica da Silva”, um clássico. Dirigido por Cacá Diegues, com Zezé Motta no papel da mítica personagem, o filme - lançado em 1976 – foi, conforme informam os créditos iniciais deste relançamento, restaurado digitalmente em resolução 4K.

Vinte e três cidades brasileiras vão exibir esta versão remasterizada. O filme poderá ser conferido em BH nas salas do Cine Belas Artes e do Centro Cultural Unimed-BH Minas.


Dentro da diretriz de evitar a manipulação dos materiais originais em película, o processo utilizou arquivos digitais. Sendo esses provenientes do escaneamento do negativo original de imagem em 35mm, que, informa a produção, à época do processamento, apresentava sujeiras, fungos e rasgos de todos os rolos. Os louros da iniciativa cabem à Sessão Vitrine Petrobrás.

Detalhes técnicos à parte, o filme é daqueles que dispensam muitas apresentações, principalmente aqui, em Minas, visto se tratar de uma história hoje bastante conhecida (ainda que apontamentos vejam graves distorções no retratamento dessa mulher, filha de um homem branco de origem portuguesa e uma africana), ambientada na segunda metade do século XVIII, nas proximidades do Arraial do Tijuco – hoje, Diamantina. 


O ponto de partida é a chegada, na região, de João Fernandes de Oliveira (Walmor Chagas), novo contratador de diamantes nomeado pelo regente, preocupado com possíveis desvios na extração do ouro e de diamantes em plagas locais.

Não demora e o contratador é impactado pela beleza e sensualidade da figura da escrava Xica da Silva – sim, você sabe, vivida pela diva Zezé Motta -, a ponto de logo querer comprá-la. Os dois se tornam publicamente amantes, desafiando o tradicionalismo e o preconceito vigente à época. 

Obstinado, João Fernandes não poupa esforços para satisfazer os caprichos da sedutora moça, a começar por lhe conceder a almejada carta de alforria – o que, vale dizer, não permite a Xica da Silva o livre acesso a todos os lugares frequentados pela elite branca. 


Mais que isso, o contratador manda trazer perucas e tecidos dos mais caros para Xica da Silva, além de emular um mar, para que ela, assim, possa ter a sensação de uma viagem de barco.

Em se tratando de um filme feito há 50 anos, naturalmente alguns aspectos certamente vão provocar uma certa estranheza, mesmo para aqueles que o revisitaram mais amiúde. É pertinente supor que, se fosse filmado hoje, o próprio tom interpretativo dos atores seria distinto – mesmo lembrando que Diegues optou por um tom farsesco. 

Portanto, é necessário pensar “Xica da Silva” como um documento importante da produção cinematográfica brasileira dos anos 1970, em tempos nos quais os recursos eram – óbvio – mais limitados. 


Um documento, que, por seu turno, se empenha em flagrar um período extremamente doloroso da história brasileira, o da escravidão, quando seres humanos violentamente tirados de seus países de origem eram separados de suas famílias e trazidos em condições sub-humanas para o Brasil, sendo comercializados, escravizados e, diante de patrões contrariados, submetidos a rituais de tortura inenarráveis, alguns dos quais aparecem sublinhados na tela, numa representação que busca explicitar – para o público de 1976, assim como para o de agora - o horror.

Por outro lado, a ambição da escrava que usa de sua sexualidade para catapultar sua posição na sociedade incomoda bastante, principalmente por, de acordo com alguns historiadores, não corresponder aos fatos. Aqui, não cabe estender no quesito figura histórica X personagem tecida pelo imaginário, embora uma pesquisa aprofundada em sites confiáveis possa ser proveitosa. 


A própria historiadora e escritora Mary del Priore lançou, este ano, pela Editora José Olympio, obra no qual desmonta a imagem hiper sexualizada de Xica da Silva: “Meu Nome é Francisca: Uma História de Chica da Silva” (em tempo: a grafia com ch é considerada historicamente como a correta).

Com o olhar de que a história real não corresponde ao mito, o espectador, pois, pode rever o filme atentando-se para o talento incontestável de Zezé Motta, aproveitando para rever grandes atores que já partiram, como José Wilker e Walmor Chagas – para não falar da presença em cena de Elke Maravilha, linda. Além de relembrar uma das grandes produções de Cacá Diegues, falecido em 2025.

Como assinalamos, é um filme icônico, um documento. E que bom, então, que volta em cartaz nos cinemas marcando a importância da preservação da memória.


Ficha técnica:
Direção: Cacá Diegues
Roteiro: Cacá Diegues e João Felício dos Sanros
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cine Belas Artes e Centro Cultural Unimed-BH Minas
Duração: 1h47
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Ano: 1976 (RELANÇAMENTO)
Gêneros: comédia, história