25 fevereiro 2026

"A Miss" lança um olhar atual sobre o universo dos concursos de beleza

Dois gêmeos, dois desejos diferentes e uma mãe controladora que vive em função da imagem
(Fotos: Olhar Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
"A Miss", primeiro longa-metragem da carreira do também dramaturgo e roteirista fluminense (nascido em São Gonçalo) Daniel Porto, cita, em seu título, um tema cuja abordagem serve de gancho para tratar assuntos na ordem do dia, como as questões de gênero. 

Passado no bairro carioca do Grajaú, o filme flagra uma família formada por Iêda (Helga Nemetik), uma mãe solo, endurecida pela vida, e seus dois filhos gêmeos, Martha (Maitê Padilha) e Alan (Pedro David), então com 17 anos. 


Na juventude, Iêda (o nome certamente é uma alusão a Ieda Maria Vargas, primeira brasileira a vencer o Miss Universo, em 1963, e falecida ano passado) participou, por influência da mãe, de concursos de beleza, o que, conscientemente ou não, a fez desejar que a filha (cujo nome faz referência a ícones como Martha Vasconcellos e Martha Rocha) siga o mesmo caminho. 

Ocorre que a adolescente não quer menos que maior distância possível desse mundo no qual a individualidade é solapada por ditames anacrônicos aos tempos atuais, como a magreza excessiva. Quem não se lembra da lenda das célebres duas polegadas a mais de Martha Rocha, que por anos pautou o imaginário do país? 


E é aí que entra em cena a solução inesperada para o impasse: em "A Miss", enquanto Martha tem repúdio por um mundo no qual a alimentação tem que ser regrada e a postura, perfeita, lapidada por caminhadas com livros sobre a cabeça; o personagem de Alan passa a externar seu fascínio por tudo o que cerca o universo do glamour feminino. 

E, assim, com o apoio de Athena (Alexandre Lino), que divide com Iêda a condução de um salão de beleza de bairro, Alan parte para encarar a etapa que vai escolher a representante do Grajaú rumo ao momento seguinte - a eleição da miss Rio de Janeiro. Uma artimanha que, diga-se de passagem, até dado momento, se desenrola sem conhecimento da mãe.


Apresentado, no material de divulgação enviado à imprensa, como uma "dramédia contemporânea que propõe um olhar sensível e bem-humorado sobre as relações familiares e a liberdade de ser quem se é", "A Miss" traz boas surpresas, como a voz (e a participação) da cantora Ellen de Lima, defendendo "A Canção das Misses", assim como um elenco visivelmente comprometido. 

No entanto, ao fim, fica a impressão de que a questão da identidade de Alan poderia ter sido mais trabalhada dentro da trama, dada a atualidade do tema. 

Outro ponto é que alguns momentos de intenção cômica não são efetivamente tão engraçados assim, portanto, poderiam ter sido limados na edição final, sem prejuízo da proposta como um todo - caso da ingestão de remédios para controlar a ansiedade ou da cena da ponta acesa de um cigarro.


Festivais

Em tempo: o material de apresentação do filme informa, ainda, que, antes de chegar ao circuito comercial brasileiro, "A Miss" foi exibido no Actrum International Film Festival (Espanha) e no 18º OMOVIES – Festival Internacional de Cinema LGBTQIA+ (Itália). 

Também integra a programação do 39º Queergestreift Film Festival Konstanz (Alemanha). O roteiro de "A Miss" foi desenvolvido no laboratório francês do Festival Varilux de Cinema Francês. A distribuição é da Olhar Filmes.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Daniel Porto
Distribuição: Olhar Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h45
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gêneros: drama, comédia

24 fevereiro 2026

Breve leitura dos documentários em curta-metragem do Oscar 2026

 
 

Marcos Tadeu

 
Os indicados ao Oscar de Melhor Documentário em Curta-Metragem deste ano mostram uma Academia de Artes e Ciências Cinematográficas cada vez mais próxima dos problemas do mundo real. 

No lugar de histórias "somente para distrair”, os filmes escolhidos falam de situações reais, que estão acontecendo agora na vida de pessoas de verdade. Isso já diz muito sobre o momento que a premiação vive: o Oscar também é um retrato do tempo atual. Confira os concorrentes, três deles já disponíveis em streaming:

"O Diabo Não Tem Descanso" (HBO Max) entra num tema pesado sem enrolação. O curta acompanha a equipe médica que garante a segurança de mulheres que buscam o aborto. São profissionais que vivem esse conflito todos os dias e a produção mostra o cansaço, o medo e a pressão constante. 

Não é um filme para agradar todo mundo e sim para provocar. Ele joga o espectador para dentro da realidade de quem está ali, tentando sobreviver e seguir em frente em meio a decisões difíceis. A obra é a mais cotada da categoria.

Ficha técnica
Direção:
Christalyn Hampton e Geeta Gandbhir
Duração: 31 minutos
Classificação: 12 anos
Exibição: HBO Max
País: EUA



"Quartos Vazios" (Netflix) escolhe falar por meio do silêncio. Um jornalista e um fotógrafo registram os quartos de crianças e adolescentes que morreram em ataques a escolas. O filme leva o espectador a sentir a falta dessas pessoas, mesmo sem conhecer suas histórias. Não tem choque visual, não tem discurso político direto, tem ausência, e a ausência pesa. É o tipo de obra que faz a dor parecer mais próxima, mais real, mais humana.

Ficha técnica
Direção:
Joshua Seftel
Duração: 33 minutos
Classificação: 12 anos
Exibição: Netflix
País: EUA


"Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud" (HBO Max) lembra que por trás de cada imagem de guerra há alguém correndo risco para contar o que está acontecendo. O  documentário é uma homenagem do diretor ao seu irmão, Brent Renaud, o primeiro jornalista americano morto na Guerra da Ucrânia. Ele aproxima o público da figura deste profissional e faz pensar em como consumimos essas imagens no dia a dia, muitas vezes sem lembrar do custo humano que existe por trás delas.

Ficha técnica:
Direção:
Brent Renaud e Craig Renaud
Duração: 39 minutos
Classificação: 16 anos
Exibição: HBO Max 
País: EUA


"Children No More: Were and Are Gone" retrata um grupo de ativistas israelenses pela paz que realiza vigílias silenciosas semanais em Tel Aviv. Numa resistência silenciosa, eles seguram fotos de crianças palestinas mortas em Gaza. A produção foca nas reações no público às manifestações: indiferença, tristeza, negação e até violência contra as ativistas. Ainda não está disponível em streaming no Brasil.

Ficha técnica
Direção:
Hilla Medalia
Duração: 36 minutos
Classificação: 12 anos
Exibição: ainda sem previsão de chegar ao streaming do Brasil
País: a sociedade israelense


"Perfectly a Strangeness" - ambientado no deserto do Atacama, no Chile, o curta mostra a percepção do universo através da visão de três burros que descobrem um observatório astronômico abandonado. O filme explora o visual, mas se arrasta, mesmo com seus 15 minutos de duração. A abordagem é mais filosófica e intelectual, com longos silêncios, o que pode não agradar ao público em geral.

Ficha técnica
Direção e roteiro: Alison McAlpine
Duração: 15 minutos
Classificação: não informada
Exibição: ainda sem previsão de chegar ao streaming do Brasil
País: Canadá


Essa seleção mostra que a categoria de documentário de curta-metragem no Oscar se mantém como o espaço onde o cinema encara o mundo sem tanto filtro. São filmes que não querem só entreter: querem fazer sentir, pensar e, em alguns casos, até incomodar. 

A cerimônia do Oscar acontece dia 15 de março, em Los Angeles. Acompanhe com o Cinema no Escurinho.