21 junho 2026

"Toy Story 5": quando os brinquedos enfrentam o maior rival de todos, as telas

Animação é uma aventura divertida com um importante alerta para pais e filhos sobre os perigos do
mundo digital (Fotos: Disney Pixar)
 
 

Maristela Bretas

 
A convite da @Cineart_oficial@nerdexperience, assisti a uma sessão especial de "Toy Story 5" na sala Imax do Cineart Boulevard. E gostei bastante deste novo capítulo da franquia que está em cartaz em vários cinemas de BH, Contagem e Betim.

Desta vez, o protagonismo fica com Jessie (novamente com a voz de Joan Cusack e dublagem em português de Mabel Cezar), que se recusa a perder sua dona Bonnie (Scarlett Spears) para o novo brinquedo da menina: um tablet em formato de sapo chamado Lilypad (Greta Lee/Maisa).


Mais uma vez, a Pixar acerta na abordagem ao retratar a dificuldade de crianças pequenas e tímidas em fazer amizade com outras da mesma idade. Uma situação agravada pelo uso excessivo da tecnologia como forma de ocupar um tempo que poderia estar sendo dedicado às brincadeiras, à imaginação e à convivência.

É nesse momento que os adultos se tornam o principal alvo de "Toy Story 5". Muitos acreditam que celulares e tablets podem resolver problemas de socialização e aproximar seus filhos de outras crianças. Um grande engano, que pode abrir caminho para riscos ainda maiores, como a exposição precoce às redes sociais, ambientes que nem sempre são acolhedores.

Apesar da abordagem mais madura, o filme conseguiu envolver bem as crianças presentes na sessão. Foi o caso de uma sobrinha de 6 anos que me acompanhou e se divertiu durante toda a exibição.


Confesso que meus dois filmes preferidos da franquia continuam sendo o primeiro, lançado em 1995, e o quarto, de 2019 (ambos em exibição no canal DisneyPlus). Ainda assim, a Pixar mostra que sabe se atualizar — mesmo que com algum atraso — ao apontar de forma precisa os impactos do universo digital nas relações humanas e na educação infantil.


Desta vez, Jessie, Buzz Lightyear (Tim Allen/Guilherme Briggs), Woody (Tom Hanks/Marco Ribeiro) e todos os brinquedos de Bonnie ficam alarmados com a chegada de Lilypad, que conecta virtualmente a garota, de apenas 8 anos, às colegas da escola e da dança. Meninas que parecem se relacionar apenas por meio de jogos e redes sociais.


Mas será que essa é a amizade que Bonnie realmente procura? Cabe aos seus velhos e leais brinquedos, liderados por Jessie, a missão de ajudá-la a encontrar conexões verdadeiras e descobrir o valor da convivência presencial. 

Para isso, eles contarão com novos aliados que surgem ao longo da animação e enfrentam problemas semelhantes, como o divertido Amigo Rolinho, dublado em português por Rafael Infante.

"Toy Story 5" tem menos momentos emocionantes do que seus antecessores, mas a atuação dos brinquedos continua sendo sua maior força. Jessie assume uma postura quase maternal em relação a Bonnie, enquanto luta para aceitar que as máquinas estão ocupando cada vez mais espaço e empurrando ela e seus amigos para o esquecimento.


Ao mesmo tempo, a jovem xerife precisa encarar seus próprios fantasmas e o medo de ser trocada novamente. A personagem ganha até uma canção inédita na trilha sonora, interpretada por Taylor Swift: "I Knew It, I Knew You".

Buzz também enfrenta seu próprio dilema: continua apaixonado por Jessie, mas sem coragem para se declarar. Já Woody — agora exibindo uma brilhante careca — percorre o mundo em busca de brinquedos tradicionais abandonados por seus donos, sempre ao lado da amada Betty (Annie Potts).


Com essa atualização, sete anos após o último filme, tenho a impressão de que a franquia finalmente chega ao fim. Mas deixa um alerta importante sobre algo que já acontece no mundo real: aparelhos eletrônicos estão ocupando espaços que antes pertenciam às pessoas.

É preciso que os adultos redescubram o prazer de brincar com as crianças, de criar conexões presenciais feitas de abraços, risadas e diversão compartilhada. E "Toy Story 5" procura mostrar, de forma sensível e divertida, a urgência dessa mudança.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Andrew Stanton e McKenna Harris
Produção: Disney Pixar
Distribuição: Walt Disney Studios
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h42
Classificação: livre
País: EUA
Gêneros: Animação, infantil, aventura, família

19 junho 2026

Os meandros da psiquê humana conduzem "As Correntes"

Longa foca na personagem interpretada por Isabel Aimé Gonzalez-Sola que tem sua vida mudada por
completo após uma viagem à Suíça (Fotos: Filmes do Estação)
 
 

Patrícia Cassese

 
Com um título um tanto quanto emblemático, por remeter, por exemplo, a elos que aprisionam, ou ao fluxo de uma massa de água, “As Correntes”, produção em cartaz no Cine Belas Artes BH, centra seu foco na personagem Lina (Isabel Aimé Gonzalez-Sola), uma jovem estilista (34 anos) que, nos momentos iniciais do filme, está em outro país – a Suíça - para receber um prêmio por seu trabalho. 

Um momento de coroamento, mas que, ao fim, acaba por implodir a ordem que até então pautava sua vida junto ao marido e à filha pequena em seu território de origem, a Argentina.

A cena inicial do filme – cujo roteiro e direção são de Milagros Mumenthaler - mostra justamente a cerimônia de entrega da láurea, que, diga-se, tem um destino inesperado (estamos falando do objeto em si). 


Pouco à frente, o espectador é surpreendido com um inesperado mergulho de Lina nas águas geladas do rio Ródano (pontuando-se que a cena notadamente se passa em período de frio), com a câmara focando também um objeto que ela portava e que fica a flutuar após a imersão da moça. 

A sequência já mostra Lina retornando ao hotel envolta em uma capa térmica e com as roupas que portava antes do pulo envoltas em um saco plástico, embora a cena completa, detalhada, do que houve, só vá aparecer mais adiante no longa-metragem. 

Fato é que a personagem retorna a Buenos Aires e enigmaticamente opta por não compartilhar com o parceiro, Pedro (Esteban Bigliardi, de “Os Delinquentes”, atualmente disponível no Mubi), o ocorrido – ainda que a mudança de comportamento seja evidente. 


Em uma das cenas, por exemplo, o marido insiste em uma conversa a dois para tentar entender a inequívoca alteração nas atitudes cotidianas, dizendo, em dado momento: “Parece que você não voltou” (referindo-se à viagem).

Sim, um certo alheamento é um dos pontos que o coloca em alerta, mas, por outro lado, há detalhes que só o espectador tem acesso, como a aversão que Lina passa a sentir do contato de seu corpo com a água, fazendo-a inclusive evitar lavar os cabelos – a ponto de o couro cabeludo começar a coçar e, em decorrência, apresentar sinais de vermelhidão. Em dado momento, ela inclusive passa a usar xampu seco para esconder do marido o “novo hábito”.  

Na verdade, a própria higiene corporal diária passa a ser feita sem Lina estar diretamente sob o fluxo de um chuveiro. E mesmo no momento do banho da filha (que, por ser pequena, demandaria acompanhamento de um adulto), a estilista sente resistência em adentrar o toilette, esperando que a menina se resolva sozinha. 


Quando a situação começa a fugir do controle, Lina procura uma antiga amiga – desconhecida pelo marido, atestando que há uma face oculta da vida da parceira que muitos desconhecem – para que ela lave suas madeixas. Detalhe: mediante uma inalação sedativa prévia, para que ela esteja desacordada. 

Há um trecho do filme no qual Lina fala a um terapeuta sobre esse pavor à água, citando o medo de ser arrastada, à revelia, por hipotéticas correntes. A fobia ao banho, no entanto, segue sendo um sintoma imperceptível para o marido, ainda que, como já pontuado, outros comportamentos gerem estranheza nos demais personagens. A sogra, por exemplo, certo dia aparece à porta da casa da família, sem avisar, levando comida para o casal e a neta, preocupada com a alimentação ali. 


Um ponto interessante é que se a personagem é apresentada inicialmente como Lina, um diminutivo de seu nome de batismo, Catalina, em dado momento, temos em cena pessoas que a chamam de Cata. Portanto, é como se duas personas habitassem o mesmo corpo, mas cada uma desse as caras para um entorno distinto, com jeitos próprios de ser. 

O marido de Lina não conhece as facetas de Cata, assim como pessoas ligadas a Cata – como a mãe da estilista – não conhecem bem a faceta Lina. A divisão aponta para um transtorno dissociativo, que, numa consulta informal, sem pretensões de diagnósticos precisos, podem surgir como mecanismo de defesa contra traumas na infância. Há, no filme, uma pista para tal.


Exatamente por isso, “As Correntes” vem sendo apresentado como um drama psicológico, e a direção acerta ao recorrer a tons escuros para acompanhar a narrativa de uma personagem que busca, principalmente, fazer com que o passado não contamine de forma irremediável a relação com o marido e, principalmente, com a filha. 

No frigir dos ovos, um filme duro, desconfortável, incômodo, mas que vai interessar ao público afeito ao enigmático mistério da mente humana. 

Em tempo: nascida na Argentina e criada na Suíça, Milagros Mumenthaler chega, com “As Correntes”, a seu segundo longa. O primeiro, “Abrir Puertas y Ventanas”, registre-se, recebeu o Leopardo de Ouro no Festival de Locarno. Aos 49 anos, ela também já foi premiada pelos curtas que assinou.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Milagros Mumenthaler
Produção: Alina Film e Ruda Cine, coprodução RTS Radio Télevision Suisse
Distribuição: Filmes do Estação
Exibição: Cine Belas Artes BH
Duração: 1h44
Classificação: 16 anos
Países: Suíça e Argentina
Gênero: drama