07 abril 2026

“Cinco Tipos de Medo”: thriller brasileiro entrelaça, com qualidade, histórias e personagens

Filme marca a estreia no cinema dos atores de séries e telenovelas Bella Campos e Xamã, que conquistou
o troféu de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Cinema de Gramado (Fotos: Divulgação)
 
 

Eduardo Jr.

 
O cinema nacional vive, de fato, uma boa fase no quesito qualidade. O exemplo mais recente dessa safra é o interessante “Cinco Tipos de Medo”. Já com alguns prêmios na bagagem, o longa distribuído pela Downtown Filmes estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 9 de abril.  

Dirigido e roteirizado por Bruno Bini, o longa cruza, com habilidade, as histórias de cinco personagens. Talvez a proposta faça alguns leitores aqui se lembrarem do premiado “Crash: No Limite” (EUA, 2004). Ambos começam com reflexões do protagonista, entrelaçam histórias e entregam roteiros surpreendentes. 


Em “Cinco Tipos de Medo”, um jovem músico lida com uma perda e se envolve num romance que traz mais problemas do que paz. É quando começam a se cruzar as histórias de um traficante, um advogado de comportamento suspeito e uma policial com desejo de vingança.

A história se passa na periferia de Cuiabá (MT), cenário pouco explorado no audiovisual brasileiro. Ponto positivo para esta escolha. E apesar de ser um thriller, a direção consegue levar o olhar do espectador para além da tensão típica do gênero, com questões como a Covid-19, relacionamentos abusivos e para a ausência do estado em algumas comunidades, que leva pessoas a contar mais com o crime do que com o poder público.


O início já apresenta algo que chama a atenção, um aviso de que o longa se inspira em histórias reais. Logo depois, é mencionada uma pesquisa (sem informar a fonte ou se é real), sobre os maiores medos do homem: de médico, de lugares fechados, da solidão, de ficar sem dinheiro, e só então, no espantoso quinto lugar da lista, o medo de morrer. 

Bruno Bini, então, vai colorindo suas personagens com as tintas dessas preocupações. 


E o elenco, em sua maioria, dá conta do recado ao imprimir nas personagens esses traços. O filme conta com Bella Campos (Marlene) e Xamã (Sapinho) - ambos estrearam no cinema com este longa -, João Vítor Silva (Murilo), Bárbara Colen (a policial Luciana), Rui Ricardo Diaz (Ivan), Rejane Faria (Antônia), Jonathan Haaggensen (Hugo) e Zecarlos Machado (Régis).   

Criminalidade, suspense e violência dão corpo a esse thriller, que tem cenas apresentadas sem linearidade, mas que se encaixam bem no conjunto da obra. A luz correta, a fotografia bem executada, as conexões das histórias e as reviravoltas agradam bastante. 


Não por acaso o longa conquistou, no Festival de Gramado de 2025, os prêmios de Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Montagem, para Bruno Bini, além do troféu de Melhor Ator Coadjuvante para Xamã. E ainda viaja para disputas em festivais internacionais. 

Pode não ser um filme daqueles que conquistam indicações ao Oscar, mas prende o olhar do espectador na tela do início ao fim.  


Ficha Técnica:
Direção e roteiro: Bruno Bini
Produção: Plano B Filmes, Druzina Content, coprodução Quanta
Distribuição: Downtown Filmes
Exibição: salas da rede Cineart
Duração: 1h47
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Gêneros: drama, ação

05 abril 2026

Com leveza e muito humor "Parque Lezama" trata das dores e delícias da velhice

Luis Brandoni e Eduardo Blanco são os protagonistas octogenários desta comédia dramática que se
passa, na maior parte do tempo, num parque (Fotos: Netflix)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Mais uma vez, o diretor argentino Juan Campanella acerta em cheio, ao roteirizar e dirigir "Parque Lezama", filme tão engraçado e delicioso quanto incômodo. Os encontros frequentes de dois octogenários num parque popular de Buenos Aires levam o público ao inevitável confronto com a velhice que, se ainda não chegou, um dia chegará. 

Daí a maestria do diretor, que em 2010 levou o Oscar por "O Segredo dos Seus Olhos", ao nos apresentar com graça e nostalgia, os diálogos e - por que não dizer - as peraltices e aventuras desses dois homens tão diferentes um do outro.


Antônio Cardoso (Eduardo Blanco) é um velho conformado com seu lugar no mundo. Discreto, trabalha como zelador de caldeira de um prédio há mais de 40 anos e não pensa em se aposentar tão cedo. Já León Schwartz, magistralmente interpretado por Luiz Brandoni, é matreiro, loroteiro e sagaz. Sua vida é uma incógnita. 

Presume-se apenas que foi um militante comunista e que vive uma vida desregrada, mas cheia de aventuras. Embora se encontrem com frequência no mesmo parque, os dois são como água e azeite e, algumas vezes, chegam às vias de fato nas muitas discussões que eles próprios constroem. 


Sabe-se que Eduardo Blanco e Luiz Brandoni interpretaram os dois velhinhos por muito tempo em teatros na Argentina, sempre com muito sucesso. Não é pra menos. O roteiro é rico, bem construído e as situações apresentadas ao espectador sempre surpreendem. Nunca se sabe do que o ardiloso León Schwartz vai ser capaz de aprontar. 

A história é quase toda em cima dos diálogos dos dois personagens, mas nunca cansativa. Outros atores e atrizes entram como coadjuvantes em raros momentos, servindo apenas como escada para a dupla. Destacam-se Verônica Pelaccini como Clarita, filha de León, e Augustin Aristarán como Gonzalo, o sindico do edifício onde Antônio trabalha.


Mas que ninguém se engane: nem só de risadas vive o espectador de "Parque Lezama". Há momentos de muita ternura e amizade, além, claro, de esbarrões em questionamentos muito reais sobre a velhice e suas inevitáveis consequências e dificuldades. 

É possível envelhecer sem se tornar um peso para os filhos? Pode-se ficar velho e, ao mesmo tempo, independente? O filme está em cartaz no Netflix.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Juan José Campanella
Exibição: Netflix
Duração: 1h55
Classificação: 14 anos
País: Argentina
Gêneros: drama, comédia