17 maio 2026

“Surda”: o filme que obriga o espectador a ouvir o silêncio da exclusão

Drama espanhol, escrito e dirigido por Eva Libertad, tem a primeira atriz surda, Miriam Garlo, a vencer
um prêmio Goya (Fotos: Distinto Films, Nexus CreaFilms, A Contracorriente)
 
 

Silvana Monteiro

 
“Surda” ("Sorda"), dirigido por Eva Libertad, é uma obra que retrata a vida de uma mulher com deficiência auditiva que está à espera de uma menina. Prestes a se tornar mãe, as dimensões desse acontecimento tornam-se ainda mais profundas e conectam relações afetivas em torno da chegada e do futuro da criança. 

O longa está em exibição no Una Cine Belas Artes, com as sessões contando com legenda descritiva diretamente na tela, além de recursos de audiodescrição e Libras disponíveis pelo aplicativo Conecta. 

O filme traça o centro da narrativa para aquilo que cerca Angela (Miriam Garlo): os constrangimentos cotidianos, os ruídos sociais produzidos pelo capacitismo e a exaustão de existir em espaços que ainda operam sob a lógica da exclusão. 


A maternidade surge atravessada por medo, desejo de autonomia, afeto e insegurança, compondo uma experiência profundamente humana e distante das representações higienizadas que o cinema costuma oferecer. Nesse ponto, é lindo de ver como a obra explora a sororidade e a rede de apoio como ferramentas importantes para uma vivência mais inclusiva.

A atuação de Miriam Garlo sustenta essa dimensão com impressionante precisão. Sua Angela nunca é reduzida à fragilidade nem convertida em um estático símbolo heróico.  Para imergir o telespectador na condição da protagonista, de forma empática, o filme mergulha na intensidade de sua comunicação por meio da língua de sinais. 


Ao longo da trama é possível sentir desconforto nos pequenos gestos e uma contenção emocional que torna cada cena mais densa. Há sempre uma tentativa de trazer a compreensão de que vulnerabilidade não elimina potência, e essa percepção atravessa toda a construção da personagem.

Tecnicamente, “Surda” trabalha o som de maneira inteligente e sensorial. O desenho sonoro alterna presenças, abafamentos e vazios para aproximar o espectador da percepção de Angela sem recorrer a truques manipulativos. 


A fotografia acompanha essa proposta com enquadramentos íntimos, luz naturalista e uma câmera que frequentemente permanece próxima do rosto da protagonista, captando tensões mínimas e silêncios que dizem mais do que qualquer diálogo. A direção evita excessos dramáticos e aposta em uma mise-en-scène sóbria, permitindo que os conflitos emerjam do cotidiano.

Outro mérito do longa está na forma como aborda as interseccionalidades. A narrativa articula maternidade, trabalho, vida afetiva com Hector (Álvaro Cervantes), amizades e deficiência, sem transformar nenhum desses elementos em dramalhão. A relação com o marido evidencia como o amor não resolve sozinho as barreiras de comunicação e acessibilidade.  


“Surda” provoca ao expor o quanto a sociedade ainda condiciona pertencimento à adaptação forçada de quem é diferente. Ao abandonar metáforas simplistas de superação, Eva Libertad entrega uma obra madura, sensível e tecnicamente consistente, capaz de transformar silêncio em linguagens cinematográfica e social.

Premiações

O longa foi vencedor de três prêmios Goya, considerado o Oscar da Espanha, com Miriam Garlo fazendo história como a primeira mulher surda a vencer, pela categoria de Melhor Atriz Revelação. Eva Libertad também foi premiada, como Melhor Diretora Estreante, e Álvaro Cervantes venceu Melhor Ator Coadjuvante. 

Também foi premiado em Seattle, Málaga e Guadalajara. Além dos prêmios Platino de Melhor Filme de Estreia e Melhor Ator Coadjuvante.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Eva Libertad
Produção: Distinto Films, Nexus CreaFilms e A Contracorriente Films
Distribuição: Retrato Filmes
Exibição: Una Cine Belas Artes - sala 1 - 18h30
Duração: 1h38
Classificação: 12 anos
País: Espanha
Gênero: drama

14 maio 2026

“O Rei da Internet”: filme revive a era da conexão discada e a ascensão do hacker que parou o Brasil

João Guilherme Ávila entrega ótima atuação sobre a vida do jovem que aplicou golpes financeiros que
lesaram milhares de pessoas nos anos 2000 (Fotos: Clube Filmes)
 
 

Maristela Bretas

 
Anos 2000. Internet discada, conexão lenta, barulho do modem e jovens esperando dar meia-noite para finalmente entrar na rede sem ocupar a linha telefônica da casa. Era um período em que pouco se falava sobre crimes digitais, roubo de dados ou invasões virtuais. 

Foi justamente nesse cenário que surgiu Daniel Nascimento (João Guilherme Ávila, ator de séries de TV e dos filmes "Fala Sério, Mãe!" - 2017 e "Tudo por Um Popstar" - 2018), adolescente que descobriu um talento incomum para driblar sistemas e acabou se tornando um dos hackers mais famosos do país. 

Essa é a trama de “O Rei da Internet”, longa inspirado em fatos reais que estreou nesta quinta-feira (14) nos cinemas, com direção de Fabrício Bittar e distribuição da Manequim Filmes.


Daniel é apresentado como um jovem de classe média que sofre bullying e agressões constantes na escola. A vida dele começa a mudar quando ganha dos pais um computador equipado com o clássico Windows 98 e entrada para disquete, com conexão discada. 

Fascinado pela máquina e pela recém-popularizada internet doméstica, ele mergulha no universo da informática de forma autodidata.

Mesmo enfrentando as limitações técnicas da época, Daniel aprende rapidamente. Estuda por revistas especializadas, faz cursos de computação — embora demonstre saber mais que os próprios colegas — e logo percebe que consegue invadir sistemas nacionais e internacionais com facilidade impressionante.


O que começa como curiosidade adolescente logo se transforma em uma perigosa escalada criminosa. Primeiro vieram invasões a sites de revistas e empresas. Depois, ataques maiores, incluindo sistemas estratégicos e, posteriormente, o setor bancário. 

Daniel passa então a desviar dinheiro de milhares de contas, chamando a atenção de uma poderosa organização criminosa liderada por Fábio, personagem de Marcelo Serrado, que chegou a movimentar 62 milhões de reais à época.

Com dinheiro fácil entrando sem parar, o jovem abandona a casa dos pais e mergulha em uma rotina de luxo, ostentação e excessos. Antes mesmo dos 17 anos, já era considerado um dos maiores hackers do Brasil — até virar alvo de uma das primeiras grandes operações da Polícia Federal contra crimes virtuais.


Um dos maiores acertos do filme está justamente no mergulho nostálgico nos anos 2000. “O Rei da Internet” recria com eficiência o nascimento da cultura digital brasileira: os computadores caríssimos para a maior parte da população, as gambiarras para melhorar a conexão, as revistas de informática, os chats, os disquetes e, claro, o inesquecível som da internet discada conectando. Para quem viveu aquela época, o longa desperta memória afetiva imediata.

Narrada em primeira pessoa por Daniel, a história mantém ritmo ágil e envolvente até sua prisão. Mesmo sendo responsável por crimes que prejudicaram milhares de pessoas e empresas, o protagonista consegue despertar certa empatia do público. 

Muito graças à atuação segura de João Guilherme, mesmo com 24 anos interpretando um garoto de 15/16 anos. O ator entrega um Daniel impulsivo, inconsequente e seduzido pela possibilidade de conquistar tudo aquilo que jamais teve.


O elenco de apoio também funciona bem, com Emílio de Mello e Bia Seidl interpretando os pais de Daniel; Kaik Pereira (o amigo e parceiro Nilson), Adriano Garib (Moretti); Caio Horowicz (o hacker Noturno); Miguel Nader (o segurança Muralha); Enrico Cardoso (Peota); Clarissa Müller (Letícia); Débora Ozório (a namorada de Daniel, Carol); Davi Xiang Li (Augusto) e André Silberg (Mauricio). Participações especiais de Tânia Alves e Eri Johnson.

“O Rei da Internet” reúne ingredientes capazes de prender diferentes públicos: ação, suspense, golpes milionários, violência, bullying, festas extravagantes, drogas, sexo, carros de luxo e dinheiro fácil. Mas, acima de tudo, o filme funciona como retrato de uma geração que descobria a internet ao mesmo tempo em que ainda desconhecia os perigos daquele novo universo digital.


Hacker do Bem

Anos depois, Daniel Nascimento reconstruiu a própria trajetória e passou a atuar como consultor de segurança digital. Em 2015, contou sua história no livro “DNpontocom: A Vida Secreta e Glamourosa de um Ex-hacker”, escrito em parceria com Sandra Rossi. Daniel, que pode ser adquirido na Amazon.

Em entrevistas a TVs e jornais, afirmou que, aos 15 anos, não tinha dimensão real do impacto de seus crimes — e que nunca ficou rico porque gastava tudo em festas, compras e ostentação. Mas que pagou por seus crimes, tornando-se conhecido como um “hacker do bem” com seu trabalho.

“O Rei da Internet”, adaptado do livro, provoca nostalgia e mostra como um adolescente aparentemente comum conseguiu transformar talento, revolta e ambição em uma trajetória meteórica — e perigosa — dentro do submundo digital brasileiro. Confira o longa no cinema e comente aqui o que achou.


Ficha técnica:
Direção: Fabrício Bittar
Roteiro: Fabrício Bittar e Vinícius Perez
Produção: Clube Filmes, coprodução Maquiagem Filmes e Telecine
Distribuição: Manequim Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h15
Classificação: 18 anos
País: Brasil
Gêneros: drama, policial, biografia