25 outubro 2026

"Street Fighter": quando o videogame abraça a galhofa

Versão cinematográfica dirigida por Kitao Sakurai aposta nos personagens mais conhecidos da franquia
(Fotos: Paramount Pictures)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
As adaptações de videogames vêm conquistando cada vez mais espaço nas telas do cinema como demonstram produções inspiradas em franquias como "Super Mario Bros.", "Minecraft", "Tomb Raider" e "Resident Evil". 

Em 2026, "Street Fighter," dirigido por Kitao Sakurai, ganha uma nova versão cinematográfica live-action que aposta nos personagens mais conhecidos da franquia, especialmente Ryu (Andrew Koji) e Ken Masters (Noah Centineo). 

Ambientado em 1993, o longa combina torneios de luta, conspirações e conflitos do passado para transportar o universo dos jogos para as telas. Diferentemente da adaptação de 1994, protagonizada por Jean-Claude Van Damme no papel de Guile, a nova versão concentra boa parte de sua narrativa na relação entre Ryu e Ken. 


Sakurai abraça a galhofa que marcou o antecessor e transforma o exagero em parte fundamental da experiência. Entretanto, por trás das lutas e situações absurdas, existe espaço para explorar os conflitos pessoais dos protagonistas.

Ryu apresenta uma dimensão dramática mais intensa, marcada pela morte de seu mestre e pelo afastamento das competições. Seu conflito envolve não apenas o retorno às lutas, mas também a compreensão do Hadou, uma força que exige domínio físico, mental e espiritual. 

Essa abordagem oferece ao personagem uma jornada de autoconhecimento que contrasta com o tom irreverente de boa parte da produção.


Ken, por sua vez, é praticamente o oposto do antigo parceiro. Vaidoso, interessado na fama e acostumado a uma vida confortável, ele transforma até os próprios escândalos em espetáculo. Sua personalidade exagerada rende momentos cômicos e ajuda a estabelecer o contraste com a introspecção de Ryu. 

O filme também aposta em referências diretas aos jogos, incluindo situações reconhecíveis pelos fãs, como a destruição de carros, reforçando o fan service e a conexão com o material de origem.

Essa proposta aparece ainda na caracterização dos demais lutadores. Jason Momoa interpreta Blanka, personagem de aparência monstruosa, pele verde e capacidade de liberar descargas elétricas. Os efeitos visuais assumem uma estética artificial que parece dialogar com o absurdo dos games. 


Em vez de buscar realismo a todo custo, o longa abraça o aspecto cartunesco de seus personagens e poderes, fazendo do exagero uma escolha estética e cômica.

As participações de personagens como Honda e Balrog (50 Cent) ajudam a ampliar o universo da franquia, mas também evidenciam uma das limitações do filme. Embora "Street Fighter" apresente um elenco numeroso, nem todos recebem espaço suficiente para desenvolver suas histórias. 

Honda, Balrog, Dhalsim e Vega poderiam ter conflitos mais bem explorados, em vez de aparecerem principalmente para compor os confrontos e alimentar o reconhecimento dos fãs. O núcleo de antagonistas, em particular, acaba funcionando mais como uma reunião de lutadores do que como um conjunto de personagens com motivações próprias.


A narrativa converge para o confronto com Bison (David Dastmalchian), que deseja ampliar seu poder ao absorver a energia de Ryu. Esse objetivo conecta a ameaça externa à jornada do protagonista, enquanto Ken oferece um contraponto mais leve e irreverente. 

Ainda assim, a concentração da história nos dois personagens reduz as possibilidades de aprofundar os demais integrantes desse universo. É nesse ponto que o longa, embora divertido, também revela seus limites: reconhecer um personagem é satisfatório, mas conhecer melhor suas motivações poderia tornar sua presença mais significativa.

Também é importante reconhecer que "Street Fighter" possui uma identidade própria, construída em torno de golpes especiais, rivalidades e personagens que atravessaram gerações de jogadores. 


Embora seja possível estabelecer comparações com "Mortal Kombat", as franquias apresentam estilos distintos. Aqui, a experiência não depende apenas da reprodução das lutas, mas da capacidade de preservar o espírito exagerado, colorido e irreverente que tornou os jogos tão populares.

No fim, "Street Fighter" entende que nem toda adaptação precisa levar seu universo a sério o tempo inteiro. Ao abraçar a galhofa, o filme encontra espaço para combinar ação, humor, drama e nostalgia, ainda que deixe alguns personagens pelo caminho. Para os fãs, é um prato cheio de referências, golpes conhecidos e situações absurdas. 

Mais do que tentar transformar o videogame em um drama convencional, o filme reconhece que parte de sua força está justamente naquilo que parece exagerado demais para ser levado a sério. Afinal, quando o assunto é "Street Fighter", a diversão também faz parte da luta.


Ficha técnica:
Direção: Kitao Sakurai
Produção: Legendary Pictures, Capcom e Paramount Pictures
Distribuição: Paramount Pictures Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h50
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ação, artes marciais

22 outubro 2026

"Mestre Zu", tributo que vira aula de jornalismo, humanidade e Brasil

Documentário é uma homenagem a Zuenir Ventura, grande jornalista e imortal da Academia Brasileira
de Letras (Fotos: Divulgação)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Mesmo as pessoas que não leram os livros de Zuenir Ventura vão apreciar com gosto o documentário "Mestre Zu", direção de Zelito Viana e Luciana Savaget, em cartaz nos cinemas a partir de 5 de novembro. 

Autor de "Mal Secreto: Inveja", "Chico Mendes: Crime e Castigo", "Cidade Partida" e do best-seller "1968 - O Ano Que Não Terminou", o jornalista, que trabalhou em todos os grandes veículos de comunicação do Brasil, é mais do que um repórter de boa escrita. 

Membro da Academia Brasileira de Letras desde 2015, Zuenir é o grande pensador do Brasil, talvez o maior escritor das questões urbanas, sociais e políticas do País.


Como fica claro no filme, o mineiro Zuenir Carlos Ventura, nascido em Além Paraíba em 1931, é das raras pessoas que alcançam a unanimidade. De jornalistas a publicitários, de cineastas a alunos, de acadêmicos a artistas, todos concordam com a capacidade do mestre de ser rigoroso, exigente e, ao mesmo tempo, leve, generoso e engraçado. E, segundo muitos, irônico e sarcástico.

O documentário, que, além dos colegas, conta com a participação dos filhos Mauro e Elisa Ventura, começa com um encontro descontraído de amigos que, em volta da mesa, se perguntam: sobre qual Zuenir vamos falar neste filme? Qual deles será focalizado? 


E, pelo andamento da produção, fica evidente que, senão todos, muitos e variados "zuenirs" foram lembrados e reverenciados. Fica claro também, pela emoção de alguns dos entrevistados, que é praticamente impossível falar dele sem prestar-lhe uma homenagem. 

Miriam Leitão, Nelson Motta, Arthur Dapieve, Gerson Camarotti, Ana Maria Machado, Xexéu, Ancelmo Goes, Joaquim Ferreira dos Santos, Regina Zappa, Lula Vieira e Heloisa Teixeira são alguns dos profissionais que contam saborosas e reveladoras histórias vividas com Zuenir. 

O jornalista carregava com certo humor o estranho nome que lhe foi dado pelos pais, que lhe rendeu confusões hilárias ao longo da sua vida. Frequentemente era confundido com um nome de mulher.


Quando saiu de Minas para Nova Friburgo (RJ) onde passou parte da adolescência, ele trabalhou como ajudante do pai, pintor de paredes, faxineiro de boteco, boy de banco e caixeiro de camisaria. Mais tarde, já no Rio, virou estudante de Línguas Neolatinas enquanto morava na casa de uma tia em Vila Isabel, onde dividia um quarto de duas camas com dois primos. 

Zuenir conta também que sua vida foi marcada sempre por grandes coincidências, desde o encontro com Mary Akierstein na cantina da escola, com quem se casou e viveu a vida toda, até a forma como passou de arquivista a repórter do jornal Tribuna da Imprensa, comandado por Carlos Lacerda, antes de ser enviado especial a Paris para acompanhar João Goulart em seu exílio após o golpe de 1964.


Mas não só de coincidências e histórias saborosas foi a vida de Zuenir. Preso durante a ditadura militar, ele amargou cadeia por três meses, deixando em pânico a família e os amigos. Mas, para não perder o otimismo, dizia que, em vez de castigado, saiu premiado da prisão, pois teve como companheiro de cela ninguém menos do que o psicanalista Hélio Pellegrino.

Como não trata apenas do profissional, mas também do amigo, colega e professor de muitos, "Mestre Zu" é um documentário emocionante e inteligente. A forma como escreveu suas premiadas reportagens que se tornaram livros, e a ideia de trazer do Acre para sua casa no Rio de Janeiro um menino de 9 anos ameaçado de morte, dão a medida do homem Zuenir. Até os 13 anos, Genésio viveu sob a tutela do jornalista.


Engrandecem e humanizam também o filme a confissão do biografado de que, por duas vezes, sofreu um dilema ético ao noticiar a morte de dois amigos - Pedro Nava e Leon Hirshman. 

Outras pérolas que valem o documentário são o relato dos quatro dias que passou num sítio com Fernando Veríssimo para a produção do livro "Conversa Sobre o Tempo", de Arthur Dapieve, e sobre a carta histórica que recebeu - e publicou - do cineasta Glauber Rocha elogiando a ditadura de Geisel e Golbery do Couto e Silva. 

Enfim, "Mestre Zu" é, sob todos os aspectos, imperdível e necessário para se compreender o Brasil.


Ficha técnica:
Direção: Zelito Viana
Codireção: Luciana Savaget
Produção: Mapa Filmes do Brasil com coprodução da GloboNews, Riofilme e Niterói Audiovisual
Distribuição: Bretz Filmes e Mapa Filmes do Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h10
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: documentário