28 outubro 2026

“Naza" espanta o público com o ódio e a tecnologia usados para mortes em massa em Gaza

Longa é um retrato dos sistemas de extermínio utilizados por Israel nos ataques a palestinos e israelenses (Fotos: Vitrine Filmes)
 
 

Eduardo Jr.

 
Na abertura, a mensagem de que rostos e vozes foram alterados para a segurança das fontes ouvidas. É com clima de tensão que o documentário “Naza” se apresenta ao público e pode ser conferido no Cine Belas Artes. 

A aura de produção de risco tem razão de ser: filmado secretamente, durante a noite, nos telhados de Tel Aviv, o trabalho esmiúça os sistemas e tecnologias utilizados por Israel para realizar ataques em massa em Gaza.  

Vencedor do Prêmio Especial do Júri e aplaudido por 24 minutos pelo público no 83º Festival de Veneza, o documentário é uma produção do jornal britânico The Guardian e de James Wilson, com direção dos jornalistas Yuval Abraham e Rachel Szor. 

A dupla é responsável por “Zona de Interesse”, filme vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional de 2024. Aqui no Brasil, a distribuição de "Naza" fica a cargo da Vitrine Filmes.  

Yuval Abraham e Rachel Szor

O documentário aborda a ocupação de Gaza e Cisjordânia por Israel e o massacre promovido pelo Hamas em 2023. É quando a Inteligência Artificial assume o papel de identificar alvos. 

A partir dos depoimentos de 24 ex-integrantes do Serviço de Inteligência Israelense, o longa expõe como uma estrutura de vigilância transforma dados pessoais e celulares em instrumentos de guerra, borrando a fronteira moral do que é um combatente e o que é um civil, destruindo casas ocupadas por crianças e esfacelando a possibilidade de ajuda humanitária. 


O nome “Naza” designa os danos colaterais, o número de civis que morrerão em um ataque. Em vez de contabilizar vidas e pessoas, contabilizam-se números, transformando mortes em estatísticas. Essa lógica, somada ao uso da tecnologia e aos rostos ocultos dos entrevistados, acaba por contribuir para tornar impessoal o ato de matar. 

Como se a responsabilidade pela destruição de famílias inteiras pudesse ser dissolvida no argumento de que é um sistema, apenas um procedimento. 

Sem ver os rostos de quem relata ou de quem sofre as consequências, corre-se o risco de perder a dimensão humana desses assassinatos. Ainda assim, os depoimentos chocam. 


Espantam justamente por revelar como a morte de inocentes pode ser tratada com frieza, mesmo quando as vítimas são pessoas que apenas convivem ou se relacionam com os alvos escolhidos. 

Na noite de Tel Aviv, as conversas nos telhados são emolduradas pelas vidraças dos prédios vizinhos, que parecem separar quem observa e quem é observado. Vidas e rotinas como a de qualquer pessoas que, em segundos podem não estar mais ali. O espectador chega a pressentir um ataque ao ouvir o soar de uma sirene de bombardeio aéreo.  

O documentário acerta na tentativa de colocar o espectador mais próximo daquele drama. Principalmente quando as imagens saem do alto dos prédios e cedem lugar a cenas reais de sobreviventes procurando familiares sob os escombros, entre gritos e corpos soterrados, inertes, estampados na tela sem refresco para quem assiste. 


Afinal, o choque talvez possa resgatar a humanidade que estamos perdendo dia após dia. Aí está a dimensão humana de decisões tomadas por militares mergulhados em ódio e algoritmos. Mais do que denunciar o emprego da tecnologia na guerra, “Naza” questiona a ética de um sistema no qual a eficiência operacional está acima da vida. Provoca ao colocar a morte de civis como dano calculável. 

Talvez o efeito mais perturbador da obra esteja em mostrar que a atrocidade não depende apenas do ódio explícito, mas também de procedimentos transformados em atos burocráticos, códigos, telas que tornam a violência aparentemente impessoal. 

Diante de uma destruição que persiste, o filme convoca o público para, em 80 minutos, reconhecer as vítimas para além das estatísticas. A questionar a normalização de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade. 


Ficha técnica:
Direção: Yuval Abraham e Rachel Szor
Produção: Jornal The Guardian, JW Films (Jim Wilson) e mk2 Films
Distribuição: Vitrine Filmes
Idiomas: hebraico e inglês
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h20
Classificação: 14 anos
Países: Reino Unido, Estados Unidos
Gênero: documentário

27 outubro 2026

“As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você” emociona ao falar de amizade, luto e recomeços

 Giulia Be e Any Gabrielly entregam interpretações emocionantes e demonstram sintonia na trama
(Fotos: Paris Filmes)
 
 

Maristela Bretas

 
Prepare os lencinhos, porque “As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você” faz muito marmanjo enxugar as lágrimas. O filme conta a história de duas amigas inseparáveis, Gabriela (Any Gabrielly) e Julia (Giulia Be), e aposta na emoção para conquistar o público. A premissa não é exatamente original, mas a química entre as duas atrizes funciona muito bem e dá força à narrativa.

A produção aborda temas delicados, como luto, depressão, relações familiares, redescobertas e, principalmente, a força da amizade, que pode permanecer mesmo depois da morte. Com sensibilidade, o longa acompanha as dificuldades de uma adolescente para lidar com a perda e encontrar coragem para mudar a própria vida.


Dirigido por Diego Freitas e baseado no livro "As Dez-vantagens de Morrer Depois de Você", de Fernanda De Castro Lima, o filme apresenta Gabriela e Julia, amigas desde a infância, mas com personalidades bastante diferentes. Gabi é reservada, tímida e tem medo de sair da própria zona de conforto. Julia, por outro lado, é extrovertida, carismática e aproveita a vida intensamente.

Tudo muda quando Julia sofre um acidente de carro. Antes de morrer, ela escreve dez cartas para a amiga, cada uma com um desafio destinado a ajudá-la a enfrentar seus medos e superar a timidez. As mensagens também levam Gabi a refletir sobre situações que poderia ter enfrentado de outra maneira se tivesse tido coragem de arriscar.


É nesse processo que surge Lorena (Pamela Germano), uma nova colega de escola que se aproxima de Gabi e a ajuda a cumprir as missões deixadas por Julia. Aos poucos, a protagonista começa a se reconectar consigo mesma, a compreender melhor o luto e a importância do perdão, além de descobrir que seguir em frente não significa esquecer quem se foi.

Música e emoção em cena

As duas entregam interpretações emocionantes, monstrando sintonia nos momentos mais delicados da trama. E a música tem papel importante na história e aproxima ainda mais as protagonistas. 


Giulia Be, conhecida também por sua atuação em “Depois do Universo” (2022) e do documentário “Toquinho Maravilhoso” (2024), divide a tela com Any Gabrielly, que faz sua estreia no cinema como atriz. 

Além de cantora e compositora, Any Gabrielly é conhecida por dar voz à personagem Moana em "Moana 2" (2024), da Disney, e por ter integrado o grupo internacional Now United, do qual foi representante brasileira até 2022.

A canção é um ponto comum entre as protagonistas. As duas interpretam canções originais que contribuem para a atmosfera emotiva do filme. Entre elas está “Te Olhando Daqui”, na voz de Giulia Be, uma das músicas que mais intensificam a carga emocional da narrativa e podem levar o público às lágrimas.


Já “Ecoar”, escrita e interpretada por Any Gabrielly em inglês, reforça a presença da música como elemento de conexão entre as personagens. A trilha sonora é assinada por Fábio Góes.

O elenco conta ainda com Sheron Menezzes e Paulo Lessa, que interpretam Márcia e André, pais de Gabi; Regiane Alves, no papel de Lili, mãe de Julia; e Léo Jaime, como Toninho, um senhor divertidíssimo que se torna amigo de Gabi durante um dos desafios. 

Michel Joelsas (Nico) e Daniel Rangel (Lucas) também participam da trama como interesses amorosos da protagonista, entre outros nomes.


Os clichês típicos dos dramas adolescentes estão presentes, mas não chegam a comprometer a narrativa. O filme consegue alternar tristeza e humor, sem perder de vista os conflitos de sua protagonista. 

Ao acompanhar a transformação de Gabi, a história convida o espectador a refletir sobre a importância de valorizar a vida, enfrentar os próprios medos e cuidar das pessoas que fazem parte dela.

Mais do que uma história sobre a perda, “As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você” fala sobre aprender a continuar vivendo. E lembra que, mesmo quando alguém parte, o afeto, as lembranças e tudo o que essa pessoa nos ensinou permanecem conosco.


Ficha técnica:
Direção: Diego Freitas
Roteiro: Diego Freitas e Rod Azevedo
Produção: Paris Entretenimento
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h46
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gênero: drama