23 maio 2026

“Cansei de Ser Nerd” é uma história sobre identidade e dificuldade de continuar sendo quem é

Fernando Caruso é o protagonista desta comédia sci-fi brasileira com várias referências ao universo geek (Fotos: Mariana Vianna)
 
 

Marcos Tadeu

Parceiro do blog Jornalista de Cinema
 
Chega aos cinemas brasileiros em 28 de maio, “Cansei de Ser Nerd”, com direção de Gualter Pupo e distribuição da (H2O Films). A comédia mistura romance, ficção científica, suspense e muitas referências ao universo geek para contar uma história sobre identidade, pertencimento e a dificuldade de continuar sendo quem você é.

Aírton (Fernando Caruso) é o tipo de nerd que nunca abandonou suas teorias. Anos depois da faculdade, ele volta ao reencontro da turma de faculdade decidido a fazer três coisas: provar sua inocência em um antigo mistério, expor um suposto culto alienígena e tentar reconquistar o amor do passado. 

O resultado é uma aventura caótica que transforma paranoia, nostalgia e romances mal resolvidos em uma trama fora do comum.


O filme conversa diretamente com o público que cresceu cercado pela cultura pop. Estão ali referências a super-heróis, ficção científica, monstros clássicos e grandes franquias do cinema. Existe carinho por esse universo e isso funciona bem nos momentos mais divertidos.

Por outro lado, as referências acabam ocupando espaço demais. Em alguns momentos, elas servem mais como apoio do que como parte da narrativa, deixando temas mais interessantes em segundo plano.


No elenco estão ainda Bia Guedes (Juliana), Pedro Benevides (Ulisses), João Velho (Charles, desafeto de Aírton), Thais Belchior, Junior Vieira, Ana Carolina Sauwen, entre outros, além da participação especial de Cissa Guimarães, como Dona Têca, mãe de Aírton, e Bel Kutner, mãe de Charles. 

Fernando Caruso sustenta boa parte do filme. Mesmo dentro da comédia, ele consegue trazer emoção quando o roteiro pede algo mais íntimo. Aírton funciona porque existe verdade nele: é alguém cansado de ser visto apenas como “o estranho” da história.

E talvez esse seja o melhor ponto do longa. Existe uma discussão interessante sobre a necessidade de mudar para ser aceito. Em determinado momento, Aírton tenta abandonar aquilo que o define para parecer mais comum. 


O filme toca numa ferida muito humana: quantas vezes as pessoas escondem partes de si para caberem onde nunca houve espaço? O problema é que a obra quer abraçar muitos caminhos ao mesmo tempo. 

Mistério, bullying, reencontro de amigos, romance, teorias conspiratórias e traumas do passado disputam atenção dentro de pouco tempo de tela.

Ainda assim, há carisma nessa bagunça. “Cansei de Ser Nerd” não é um filme perfeito e tropeça ao tentar falar de tudo. Mas acerta quando deixa de lado o exagero e olha para algo simples: o medo de não pertencer. 

No fim, fica uma mensagem sincera: talvez crescer não seja deixar de ser nerd. Talvez seja parar de pedir desculpas por ser quem você sempre foi.


Ficha técnica:
Direção:
Gualter Pupo
Produção: Hungryman e Na Paralela Filmes, em coprodução com a Paramount Pictures e Telecine
Distribuição: H2O Films
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h27
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gêneros: comédia romântica, ficção, suspense

19 maio 2026

Primeiros dias de Cannes: "Fatherland", "Ceniza en La Boca" e outros destaques do festival

Entrada do Festival de Cinema de Cannes (Crédito: Carolina Cassese)
 
 

Carolina Cassese
Correspondente em Cannes

 
A 79ª edição do Festival de Cannes, que se encerra dia 23 de maio, tem movimentado a Croisette com grandes estreias internacionais. Em 12 de maio, a abertura do evento contou com a estreia de "La Vénus Électrique", comédia dramática assinada por Pierre Salvadori e ambientada na Paris dos anos 1920. A cerimônia também ficou marcada pela homenagem a Peter Jackson, que recebeu a Palma de Ouro honorária por sua icônica trajetória. 

A edição de 2026 presta homenagem a "Thelma & Louise" (1991), clássico de Ridley Scott que retrata o percurso de duas amigas pelos Estados Unidos. O longa inspira a identidade visual oficial do festival neste ano, 35 anos após sua estreia em Cannes. Assim, a presença feminina – e a ideia de resistência – já está marcada na imagem principal do evento.

Ao fim da primeira semana, alguns filmes começam a se destacar entre crítica e público, embora muitos outros longas ainda tenham suas estreias previstas para os próximos dias.

Cartaz de “Thelma e Louise (Crédito: Carolina Cassese)

Entre as produções que mais chamaram atenção neste início de festival destacamos "Fatherland", de Paweł Pawlikowski; "L’Abandon", de Vincent Garenq; "Ceniza en la boca", de Diego Luna; e "Mémoire de Fille", de Judith Godrèche. 

Outras estreias que repercutiram bastante foram "Histoires Parallèles", novo filme de Asghar Farhadi apresentado em competição; o horror "Teenage Sex and Death at Camp Miasma", de Jane Schoenbrun; e "Club Kid", primeiro filme de Jordan Firstman na direção. 

A seguir, apresentamos destaques de algumas das obras que conseguimos assistir e acompanhar a conferência de imprensa:


"Ceniza en la boca" — Diego Luna
Adaptado a partir do romance de Brenda Navarro ("Cinzas na Boca", publicado no Brasil pela editora Dublinense), o filme acompanha Lucila (Anna Díaz) e seu irmão Diego (Sergio Bautista), jovens mexicanos que transitam entre a Cidade do México, Madri e Barcelona após anos de separação da mãe Isabel (Adriana Paz). 

A obra explora questões de pertencimento e relações familiares atravessadas por diversos empecilhos. A première foi marcada por um clima bastante emocionante e contou com a presença de Gael García Bernal, um dos produtores do filme, além de Alfonso Cuarón, outro grande nome do cinema mexicano. 

Diego Luna abraça Alfonso Cuarón em Cannes
(Crédito: Carolina Cassese)

O filme destaca a repetição como uma forma de elaboração do luto; determinadas imagens e até mesmo falas são frequentemente retomadas pela personagem principal, reforçando as oscilações emocionais características de processos complexos. 

Nesse sentido, ressaltamos que o próprio título da obra atribui uma dimensão menos “racional” aos acontecimentos, aproximando a narrativa de experiências subjetivas e espirituais. 

Destaca-se ainda a importância de ver cineastas latino-americanos adaptando obras de escritoras da região, movimento que amplia a circulação internacional dessas narrativas. 


Ficha técnica:
Direção: Diego Luna
Duração: 1h42
País: México
Gênero: drama

"Fatherland" — Paweł Pawlikowski
O novo filme de Pawlikowski acompanha Thomas Mann e sua filha Erika em uma viagem pela Alemanha do pós-guerra, confrontando os efeitos persistentes do nazismo e das divisões ideológicas da Guerra Fria. 

Durante a conferência de imprensa do longa, o diretor, conhecido por "Ida" e "Cold War", comentou que chegou a considerar filmar a obra em cores, mas acabou optando pela fotografia em preto e branco por acreditar que essa estética estaria mais próxima da verdade de seu projeto. 

Saída da coletiva de imprensa de “Fatherland”
(Crédito: Carolina Cassese)

Na mesma coletiva, Sandra Hüller, indicada ao Oscar de Melhor Atriz por "Anatomia de uma Queda" (2024), refletiu sobre o papel no novo filme e afirmou carregar uma culpa histórica ligada à Segunda Guerra Mundial. 

Nesse sentido, a atriz reforçou a importância de manter o sentimento presente, inclusive como uma forma de responsabilidade social. Ressaltamos que a recepção crítica de Fatherland tem sido bastante positiva: o The Times, por exemplo, destacou a densidade emocional e intelectual da obra; por sua vez, o Daily Telegraph chamou atenção para a direção precisa de Pawlikowski e a fotografia de Łukasz Żal.


Ficha técnica:
Direção: Pawel Pawlikowski
Duração: 1h22
Países: Alemanha, Polônia, Itália, França, Reino Unido
Gênero: drama

"L’Abandon" — Vincent Garenq
Exibido fora de competição, o filme é inspirado nos últimos dias do professor Samuel Paty (Antoine Reinartz) antes de seu assassinato em 2020, em um contexto marcado pelo crescimento de tensões religiosas e a desinformação presente nas redes sociais. A obra acompanha o isolamento progressivo do professor diante de tensões institucionais e falhas que antecedem a tragédia.

Nesse processo, o filme se destaca pela forma como trabalha o olhar das crianças diante de assuntos extremamente sérios, criando um contraste forte entre a espontaneidade infantil e planos arquitetados de maneira brutal. A história é muito bem construída e consegue prender a atenção justamente por desenvolver essa tensão de forma gradual ao longo da narrativa. 


Embora trate de um caso específico do contexto francês, o filme também dialoga com uma questão muito mais ampla e presente em diferentes partes do mundo: a rapidez com que discursos de ódio se propagam por meio das plataformas digitais. 

É muito possível, por exemplo, estabelecer um paralelo entre o filme e a série "Adolescência" (2025), da Netflix, que também aborda como as relações sociais têm sido profundamente afetadas por ambientes digitais caracterizados pela instantaneidade e desinformação.


Ficha técnica:
Direção: Vincent Garenq
Duração: 1h40
País: França
Gênero: drama

"Mémoire de Fille" — Judith Godrèche ("Un Certain Regard")
Inspirado no romance autobiográfico de Annie Ernaux, vencedora do Nobel de Literatura de 2022, o filme revisita lembranças da juventude feminina a partir de uma narrativa não linear, explorando a reconstrução subjetiva de um verão que a francesa passou em um acampamento. 

Apesar do desafio de adaptar uma obra marcada pela introspecção, o filme consegue transmitir reflexões muito presentes na escrita de Ernaux, em especial no que diz respeito ao diálogo entre experiência pessoal e coletiva. 

A incorporação de marcos históricos importantes, como a repercussão de "O Segundo Sexo", obra mais célebre de Simone de Beauvoir, também reforça essa dimensão mais ampla da narrativa. 


Além disso, chama atenção a sensibilidade com que o filme aborda experiências corporais femininas, incluindo alterações no período menstrual e o impacto dos transtornos alimentares na vida de uma adolescente. 

Destaca-se ainda o fato de que o olhar da protagonista para outras mulheres ocupa um papel importante no filme: inicialmente marcado por insegurança e sensação de ameaça, seu ponto de vista passa gradualmente a buscar referências de inspiração. 

Esse é um exemplo de como o cinema consegue acrescentar diferentes camadas às narrativas, já que, nessas cenas, nada precisa ser verbalizado pela personagem para que sua transformação se torne perceptível.


Ficha técnica:
Direção:
Judith Godrèche
Duração: 1h17
País: França
Gênero: drama

No que diz respeito à programação completa deste ano, vale ressaltar que não há um longa dirigido por um cineasta brasileiro na seleção oficial do festival. Ainda assim, o país marca presença em 2026 com uma das maiores delegações da década, reunindo profissionais do audiovisual, produtores, distribuidores e representantes da indústria cinematográfica em diferentes espaços do evento. 

As vitórias de "O Agente Secreto" no ano passado – Melhor Direção (Kleber Mendonça Filho) e Melhor Ator (Wagner Moura) – também foram importantes para consolidar ainda mais a presença do cinema brasileiro no cenário internacional. 

Agora, resta acompanhar os próximos lançamentos de 2026 e torcer para que histórias de contextos diversos sigam encontrando espaço no circuito cinematográfico.


Ruas de Cannes durante o Festival de Cinema (Crédito: Carolina Cassese)