27 outubro 2026

“As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você” emociona ao falar de amizade, luto e recomeços

 Giulia Be e Any Gabrielly entregam interpretações emocionantes e demonstram sintonia na trama
(Fotos: Paris Filmes)
 
 

Maristela Bretas

 
Prepare os lencinhos, porque “As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você” faz muito marmanjo enxugar as lágrimas. O filme conta a história de duas amigas inseparáveis, Gabriela (Any Gabrielly) e Julia (Giulia Be), e aposta na emoção para conquistar o público. A premissa não é exatamente original, mas a química entre as duas atrizes funciona muito bem e dá força à narrativa.

A produção aborda temas delicados, como luto, depressão, relações familiares, redescobertas e, principalmente, a força da amizade, que pode permanecer mesmo depois da morte. Com sensibilidade, o longa acompanha as dificuldades de uma adolescente para lidar com a perda e encontrar coragem para mudar a própria vida.


Dirigido por Diego Freitas e baseado no livro "As Dez-vantagens de Morrer Depois de Você", de Fernanda De Castro Lima, o filme apresenta Gabriela e Julia, amigas desde a infância, mas com personalidades bastante diferentes. Gabi é reservada, tímida e tem medo de sair da própria zona de conforto. Julia, por outro lado, é extrovertida, carismática e aproveita a vida intensamente.

Tudo muda quando Julia sofre um acidente de carro. Antes de morrer, ela escreve dez cartas para a amiga, cada uma com um desafio destinado a ajudá-la a enfrentar seus medos e superar a timidez. As mensagens também levam Gabi a refletir sobre situações que poderia ter enfrentado de outra maneira se tivesse tido coragem de arriscar.


É nesse processo que surge Lorena (Pamela Germano), uma nova colega de escola que se aproxima de Gabi e a ajuda a cumprir as missões deixadas por Julia. Aos poucos, a protagonista começa a se reconectar consigo mesma, a compreender melhor o luto e a importância do perdão, além de descobrir que seguir em frente não significa esquecer quem se foi.

Música e emoção em cena

As duas entregam interpretações emocionantes, monstrando sintonia nos momentos mais delicados da trama. E a música tem papel importante na história e aproxima ainda mais as protagonistas. 


Giulia Be, conhecida também por sua atuação em “Depois do Universo” (2022) e do documentário “Toquinho Maravilhoso” (2024), divide a tela com Any Gabrielly, que faz sua estreia no cinema como atriz. 

Além de cantora e compositora, Any Gabrielly é conhecida por dar voz à personagem Moana em "Moana 2" (2024), da Disney, e por ter integrado o grupo internacional Now United, do qual foi representante brasileira até 2022.

A canção é um ponto comum entre as protagonistas. As duas interpretam canções originais que contribuem para a atmosfera emotiva do filme. Entre elas está “Te Olhando Daqui”, na voz de Giulia Be, uma das músicas que mais intensificam a carga emocional da narrativa e podem levar o público às lágrimas.


Já “Ecoar”, escrita e interpretada por Any Gabrielly em inglês, reforça a presença da música como elemento de conexão entre as personagens. A trilha sonora é assinada por Fábio Góes.

O elenco conta ainda com Sheron Menezzes e Paulo Lessa, que interpretam Márcia e André, pais de Gabi; Regiane Alves, no papel de Lili, mãe de Julia; e Léo Jaime, como Toninho, um senhor divertidíssimo que se torna amigo de Gabi durante um dos desafios. 

Michel Joelsas (Nico) e Daniel Rangel (Lucas) também participam da trama como interesses amorosos da protagonista, entre outros nomes.


Os clichês típicos dos dramas adolescentes estão presentes, mas não chegam a comprometer a narrativa. O filme consegue alternar tristeza e humor, sem perder de vista os conflitos de sua protagonista. 

Ao acompanhar a transformação de Gabi, a história convida o espectador a refletir sobre a importância de valorizar a vida, enfrentar os próprios medos e cuidar das pessoas que fazem parte dela.

Mais do que uma história sobre a perda, “As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você” fala sobre aprender a continuar vivendo. E lembra que, mesmo quando alguém parte, o afeto, as lembranças e tudo o que essa pessoa nos ensinou permanecem conosco.


Ficha técnica:
Direção: Diego Freitas
Roteiro: Diego Freitas e Rod Azevedo
Produção: Paris Entretenimento
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h46
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gênero: drama

25 outubro 2026

"Street Fighter": quando o videogame abraça a galhofa

Versão cinematográfica dirigida por Kitao Sakurai aposta nos personagens mais conhecidos da franquia
(Fotos: Paramount Pictures)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
As adaptações de videogames vêm conquistando cada vez mais espaço nas telas do cinema como demonstram produções inspiradas em franquias como "Super Mario Bros.", "Minecraft", "Tomb Raider" e "Resident Evil". 

Em 2026, "Street Fighter," dirigido por Kitao Sakurai, ganha uma nova versão cinematográfica live-action que aposta nos personagens mais conhecidos da franquia, especialmente Ryu (Andrew Koji) e Ken Masters (Noah Centineo). 

Ambientado em 1993, o longa combina torneios de luta, conspirações e conflitos do passado para transportar o universo dos jogos para as telas. Diferentemente da adaptação de 1994, protagonizada por Jean-Claude Van Damme no papel de Guile, a nova versão concentra boa parte de sua narrativa na relação entre Ryu e Ken. 


Sakurai abraça a galhofa que marcou o antecessor e transforma o exagero em parte fundamental da experiência. Entretanto, por trás das lutas e situações absurdas, existe espaço para explorar os conflitos pessoais dos protagonistas.

Ryu apresenta uma dimensão dramática mais intensa, marcada pela morte de seu mestre e pelo afastamento das competições. Seu conflito envolve não apenas o retorno às lutas, mas também a compreensão do Hadou, uma força que exige domínio físico, mental e espiritual. 

Essa abordagem oferece ao personagem uma jornada de autoconhecimento que contrasta com o tom irreverente de boa parte da produção.


Ken, por sua vez, é praticamente o oposto do antigo parceiro. Vaidoso, interessado na fama e acostumado a uma vida confortável, ele transforma até os próprios escândalos em espetáculo. Sua personalidade exagerada rende momentos cômicos e ajuda a estabelecer o contraste com a introspecção de Ryu. 

O filme também aposta em referências diretas aos jogos, incluindo situações reconhecíveis pelos fãs, como a destruição de carros, reforçando o fan service e a conexão com o material de origem.

Essa proposta aparece ainda na caracterização dos demais lutadores. Jason Momoa interpreta Blanka, personagem de aparência monstruosa, pele verde e capacidade de liberar descargas elétricas. Os efeitos visuais assumem uma estética artificial que parece dialogar com o absurdo dos games. 


Em vez de buscar realismo a todo custo, o longa abraça o aspecto cartunesco de seus personagens e poderes, fazendo do exagero uma escolha estética e cômica.

As participações de personagens como Honda e Balrog (50 Cent) ajudam a ampliar o universo da franquia, mas também evidenciam uma das limitações do filme. Embora "Street Fighter" apresente um elenco numeroso, nem todos recebem espaço suficiente para desenvolver suas histórias. 

Honda, Balrog, Dhalsim e Vega poderiam ter conflitos mais bem explorados, em vez de aparecerem principalmente para compor os confrontos e alimentar o reconhecimento dos fãs. O núcleo de antagonistas, em particular, acaba funcionando mais como uma reunião de lutadores do que como um conjunto de personagens com motivações próprias.


A narrativa converge para o confronto com Bison (David Dastmalchian), que deseja ampliar seu poder ao absorver a energia de Ryu. Esse objetivo conecta a ameaça externa à jornada do protagonista, enquanto Ken oferece um contraponto mais leve e irreverente. 

Ainda assim, a concentração da história nos dois personagens reduz as possibilidades de aprofundar os demais integrantes desse universo. É nesse ponto que o longa, embora divertido, também revela seus limites: reconhecer um personagem é satisfatório, mas conhecer melhor suas motivações poderia tornar sua presença mais significativa.

Também é importante reconhecer que "Street Fighter" possui uma identidade própria, construída em torno de golpes especiais, rivalidades e personagens que atravessaram gerações de jogadores. 


Embora seja possível estabelecer comparações com "Mortal Kombat", as franquias apresentam estilos distintos. Aqui, a experiência não depende apenas da reprodução das lutas, mas da capacidade de preservar o espírito exagerado, colorido e irreverente que tornou os jogos tão populares.

No fim, "Street Fighter" entende que nem toda adaptação precisa levar seu universo a sério o tempo inteiro. Ao abraçar a galhofa, o filme encontra espaço para combinar ação, humor, drama e nostalgia, ainda que deixe alguns personagens pelo caminho. Para os fãs, é um prato cheio de referências, golpes conhecidos e situações absurdas. 

Mais do que tentar transformar o videogame em um drama convencional, o filme reconhece que parte de sua força está justamente naquilo que parece exagerado demais para ser levado a sério. Afinal, quando o assunto é "Street Fighter", a diversão também faz parte da luta.


Ficha técnica:
Direção: Kitao Sakurai
Produção: Legendary Pictures, Capcom e Paramount Pictures
Distribuição: Paramount Pictures Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h50
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ação, artes marciais