25 setembro 2026

“Papaya” - O poder de mudar o mundo começa nas nossas raízes

Longa de animação conta a saga de uma semente de mamão que quer conhecer o mundo e sonha em poder voar
(Fotos: Boulevard Filmes)
 
 

Eduardo Jr.

 
Uma produção nacional que vale a pena conferir. "Papaya", em cartaz no Cine Belas Artes, marcou história como a primeira animação brasileira selecionada para o Festival Internacional de Cinema de Berlim, mesmo sem levar prêmios oficiais.

O longa-metragem de estreia da diretora e roteirista Priscilla Kellen conta a saga de uma semente de mamão que sonha em poder voar. A distribuição é da Cajuína Audiovisual e da Sessão Vitrine Petrobras, projeto voltado à democratização do cinema brasileiro.

Depois do impacto e do sucesso de "Flow", animação da Letônia que levou pra casa um Oscar e um Globo de Ouro em 2025, o público brasileiro já pode se apaixonar por mais um longa sem diálogos, e mesmo assim muito expressivo.


Colorida e com gráficos que lembram xilogravuras, a obra promete estimular a compreensão do público infantil - e também trazer mensagens para os adultos. 

Na abertura, o espectador é ambientado ao universo de “Papaya” com sons da natureza. A câmera vai subindo por uma raiz, e a vida parece se formar ao som de uma trilha suave. 

Essa música, que parece típica para acalmar um recém-nascido, se mostra coerente quando uma semente de mamão se encontra com uma gota de leite de um seio cor de mamão. 


Assim como essa sementinha, inúmeras outras se alimentam. Mas a primeira delas (cujo destino traçado no nascimento é ser nossa heroína) é arrancada do seio frutífero quando um pássaro aparece para se alimentar daquilo que é o lar de Papaya, a semente pretinha e esperta. 

Curiosa, ela vai em direção à luz que entra por uma fresta aberta na fruta e descobre que o tal pássaro pode voar. Essa habilidade a encanta, é quase um chamado. Num piscar de olhos, ela está no colo da mãe natureza. Tão encantador quanto esta cena é o forrozinho que toca ao fundo. 

Neste primeiro contato com o mundo exterior, tudo é estímulo. Se até uma joaninha, pequena e escura, pode bater suas asas por aí, uma semente de mamão também deve ter esse direito, ora bolas! Mas não. 


Mamãe natureza não deixa, pois há uma grande diferença entre voar e germinar. A saída para não estagnar e criar raízes é se movimentar, se aproximar do amigo sol, que faz suas irmãs sementes brotarem e crescerem.

É quando se intensifica a saga de Papaya, indo além do destino pré-determinado e tentando caminhar com as próprias pernas (ou voar como as pétalas de dente-de- leão). 

Mas nessa aventura ela vai descobrir a hostilidade do arame cercando o egoísmo da propriedade privada, as torres de eletricidade ferindo a paisagem, o ronco das máquinas que fazem tristes as sementes do agronegócio. 


A animação de Priscila Kellen traz uma poesia delicada. Está na sutileza de, no final do arco-íris, reencontrar a esperança quando o sonho de ganhar o mundo te afasta de casa. Na percepção de que se reconectar com suas origens é importante. Na mensagem de que florescer onde você foi plantado é vitória.

Em um Brasil que se fez, também, graças a um êxodo rural, uma animação que aborda a mudança, o sonho, e que vem embrulhada em uma trilha sonora com sanfona, pandeiro e tarol tem muita chance de conquistar corações brasileiros. 

Como atrativos, o longa tem ainda a coprodução de Alê Abreu, que dirigiu “O Menino e o Mundo” (2013), indicado ao Oscar 2016; a ótima trilha sonora de Talita del Collado e a participação da cantora Tulipa Ruiz.  


Brotando em festivais

“Papaya” teve sua primeira exibição em 2025 no Festival de Brasília, integrando a mostra Festivalzinho. O longa também passou pela Première Brasil do Festival do Rio 2025, pela 24ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, pela Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, além de exibição especial na COP30, em Belém. 

Também teve sessões na Mostra de Cinema de Tiradentes, na CineOP e no Olhar de Cinema de Curitiba em junho deste ano. É o primeiro longa-metragem de animação do Brasil a integrar a competitiva mostra Generation KPlus do Festival de Berlim de 2026. 

Assim como a sementinha Papaya, a obra de Priscilla Kellen também quer voar, voar e voar. Vale a pena ir ao cinema e ajudar na decolagem deste filme. 


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Priscilla Kellen
Produção: Boulevard Filmes, Birdo Studios, coprodução Alê Abreu
Distribuição: Cajuína Audiovisual e Vitrine Filmes
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h14
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: animação


23 setembro 2026

"Fiebre" - Uma viagem febril e delirante de uma criança pelo universo do fantástico

O visual elaborado da produção pode encantar os adultos, mas a narrativa exige atenção redobrada,
o que não combina com crianças (Fotos: Cup Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
Um dos principais trunfos de “Fiebre: Um Filme Para Crianças que Não Têm Medo do Fogo” é, sem dúvida, o apuro visual, cativante do início ao fim. O filme de Elisa Eliash, uma produção que une Brasil, Chile e Peru, mescla live-action e animação analógica para compartilhar a história de Nino, um garoto cujos olhos não produzem lágrimas – portanto, demanda cuidados constantes da mãe, que trata de ter sempre à mão um colírio para que os olhos do filho não fiquem demasiadamente ressecados.

Nino não sai muito de casa – a mãe teme que ele caia, devido ao problema ocular. No seu recolhimento involuntário, desenha bastante, mais até do que gostaria. Os trabalhos, fixados na parede, ressaltam um percurso imaginativo que será destrinchado ao longo da narrativa: assim, há a figura do avô chinês, as aventuras do pai, uma ilha na Polinésia... 


A figura da mãe surge em cena quando ela está prestes a sair ao encontro com um homem interessado em adquirir uma pintura que guarda em casa desde a infância. Mesmo febril, Nino vai acompanhá-la.

O aspecto fantástico começa a adentrar a cena quando o menino pede à mãe que lhe conte novamente a história da tela. Apesar de estar em cima da hora, a mulher cede à insistência do filho e relembra Pablo, artista adolescente e misantropo que, quando ela registrava apenas nove anos de idade, habitava o mesmo prédio, até subitamente desaparecer sem deixar rastros. 

Bem, ao menos para as pessoas do entorno, já que, a menina o encontra preso em um quadro a óleo descoberto no apartamento dele, o qual trata de pendurar em seu quarto. É na representação artística que Pablo dá sequência à sua existência, crescendo junto à garota.


Fascinado, Nino é informado pela mãe que é possível adentrar a pintura. Ao mesmo tempo, ela alerta: se entrar é fácil, sair... Imerso no já citado estado febril, Nino em dado momento ignora o alerta materno e profere as palavras mágicas que o transportam para um mundo metafísico, no qual os cenários podem mudar radicalmente a partir do momento em que da sua boca as palavras-chave voltam a sair e mediante representações visuais concretas, como fotos, desenhos e postais. 

Para citar um exemplo, não tarda a ele se ver imerso no filme italiano que, pouco antes, estava sendo exibido na TV de sua casa. O enredo mostra uma família (mãe e crianças) notadamente sem muitos recursos financeiros em meio aos bombardeios de uma guerra que ameaçam fazer a casa desabar. 


É neste momento, aliás, que ele encontra uma companheira de jornada, Dina. Juntos, os dois procuram comida e água, até desembarcarem em uma comunidade aborígene localizada nas cercanias de um vulcão prestes a entrar em erupção. 

Por sinal, temos aí um dos vários apontamentos da simbologia do fogo que aparece no subtítulo em português, para além, claro, da febre que perpassa o corpo do personagem principal, da presença de um sol inclemente ou do que emana de um fósforo.

Ao fim, há uma referência aos pais e mães que contam histórias para seus filhos, revelando uma homenagem aos que não reprimem a imaginação ilimitada dessa fase da vida, a infância, e que, pela realidade concreta, muitas vezes não deixa vestígios na vida adulta. 


A intenção é ótima, assim como digna de nota a associação do estado febril ao percurso delirante de Nino (sozinho ou junto à amiga imaginária Dina). Tal qual, como assinalado no início, o invólucro visual é de assoberbar, e é fácil prever que vai encantar adultos. 

O único porém fica por conta de uma provável não aderência do público-alvo (crianças) à história, pelo menos daquele que pertence à chamada primeira infância. Inicialmente, por conta de a narrativa exigir atenção redobrada, sem tempo para desvios ou desconcentração. 

Por outro lado, há citações que adentram terrenos arenosos, como a menção à morte iminente provocada pela erupção do vulcão. De todo modo, é uma aposta interessante. Se a criança não entender de todo o contexto, sairá impressionada pelo esmero visual. Já os pais, certamente serão cooptados.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Elisa Eliash
Produção: La Forma Cine e Válvula Films (Chile), coproduzido pela Klaxon (Brasil) e Films Bastardia y Tiempo Libre (Peru)
Distribuição: Cup Filmes
Duração: 1h24
Classificação: Livre
Países: Chile, Brasil e Peru
Gêneros: infantil, live-action, animação, ficção