11 junho 2026

"Dia D" - Spielberg usa os alienígenas para falar de nós mesmos

Diretor retoma sua paixão pela ficção científica misturando ação, conspiração e fé em nova produção 
(Fotos: Universal Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Uma reunião de amigos numa viagem ao passado. Este é "Dia D" ("Disclosure Day"), novo filme de Steven Spielberg em cartaz nos cinemas, o 37º de sua carreira, que traz fortes referências a produções marcantes de sua carreira. 

O diretor, que sempre demonstrou fascínio por temas ligados à presença de extraterrestres em nosso planeta, volta a explorar esse universo e conduz a história com a experiência de quem ajudou a definir o gênero.

Longas como "ET - O Extraterrestre" (1982) e "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" (1977) são lembrados em várias cenas, reforçando o lado mais emocional de Spielberg, que completa 80 anos no final de 2026. 

Diferentemente de "Guerra dos Mundos" (2005), que apostava mais na ação, mas sem deixar de lado as relações familiares. Até mesmo produções de outros diretores, como "Sinais" (2002), de M. Night Shyamalan, vêm à memória em determinados momentos.


E, como disse antes, esse reencontro de velhos amigos começa pela trilha sonora de John Williams, responsável pelas composições de grande parte dos filmes mais importantes de Spielberg, incluindo os três citados acima. 

A ideia de "Dia D" partiu do próprio diretor e foi entregue a outro parceiro de longa data, David Koepp — roteirista de "O Mundo Perdido: Jurassic Park" (1997) e "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" (2008) — para desenvolver a história.

No novo longa, Spielberg aposta na divulgação de documentos ultrassecretos sobre a presença de extraterrestres na Terra e o contato direto das forças militares norte-americanas com eles. Coincidência ou não, um dos períodos de aparições alienígenas destacados na trama é o governo Nixon, tema que dialoga com outro trabalho do diretor, "The Post - A Guerra Secreta" (2017).


Na história, Daniel Kellner (Josh O'Connor) e Hugo Wakefield (Colman Domingo) trabalham na segurança da agência secreta Wardex responsável por guardar esses arquivos e decidem revelar ao mundo os segredos sobre os ETs entre nós. 

A partir daí começa uma perseguição implacável, repleta de ação, ótimas cenas de perseguições (especialmente a do trem) e suspense, liderada por Noah Scanlon (Colin Firth), chefe dessa agência que tenta capturar a dupla e recuperar os pendrives com os documentos.


Enquanto isso, em outra parte do país, a meteorologista Margareth Fairchild (Emily Blunt), apresentadora de uma emissora de TV em Kansas City, passa a apresentar um comportamento estranho, falando em uma língua desconhecida. 

Sem entender o motivo, se vê misteriosamente conectada aos dois foragidos. Especialmente a Daniel, o único humano capaz de decifrar a linguagem alienígena. Todos os atores entregam ótimas interpretações e bem alinhadas à proposta da trama.

O elenco conta ainda com Eve Hewson, como Jane, namorada de Daniel; Wyatt Russell, como o atual companheiro dela; e Henry Lloyd-Hughes, no papel de Casper, chefe da segurança de Noah, entre outros.


O filme apresenta diversas imagens dos contatos com alienígenas, tanto em situações amistosas quanto em episódios de atrocidades praticadas pelos humanos. 

Algumas dessas sequências poderiam facilmente integrar os arquivos secretos recentemente divulgados pelo governo dos Estados Unidos sobre fenômenos extraterrestres e que foram guardados a sete chaves por décadas.

Mas Spielberg vai além da ficção científica. O diretor também coloca a fé em debate, levando até personagens religiosos a questionarem suas próprias crenças. Deus criou o universo apenas para os humanos? Estamos realmente sozinhos? 

Ao mesmo tempo, a divulgação das imagens gera dúvidas sobre o que é verdadeiro e o que é falso num mundo em que a inteligência artificial e as fake news dominam as redes sociais e provoca reações diversas.


O longa demonstra preocupação em retratar os alienígenas como seres mais evoluídos — e possivelmente até mais humanos — do que nós mesmos. A revelação dos arquivos acontece justamente num momento delicado, quando o planeta parece caminhar para uma Terceira Guerra Mundial.

Mais uma vez, aflora o lado emocional de Spielberg, embalado pelos arranjos de John Williams e pela belíssima fotografia de Janusz Kaminski, outro colaborador histórico do diretor, responsável por trabalhos como "Os Fabelmans" (2022), "Amor, Sublime Amor" (2021) e "Munique" (2005).

"Dia D" deixa uma grande interrogação no ar: Spielberg queria apenas fazer mais um filme sobre alienígenas ou provocar uma reflexão sobre a possibilidade — cada vez menos tratada apenas como ficção — de que não estamos sós no universo?


No início, o longa pode parecer confuso, apresentando fatos isolados que, com o decorrer da trama, vão sendo interligados, mostrando que a desinformação gera temor. E que as pessoas podem não estar preparadas para aceitar a presença alienígena.

Talvez o verdadeiro Dia D seja justamente o dia da revelação e a presença desses seres na Terra represente mais esperança do que ameaça. Para descobrir, será preciso tirar os olhos das telas por alguns instantes e ouvir a mensagem que eles tentam nos transmitir sobre o futuro que estamos construindo.

Assista ao filme e deixe aqui seu comentário sobre o que achou.


Ficha técnica:
Direção:
Steven Spielberg
Roteiro: David Koepp
Produção: Universal Pictures e Amblin Entertainment
Distribuição: Universal Pictures Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h25
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: Ficção, suspense

10 junho 2026

O Som do Perigo: quando o jazz encontra o crime em "O Afinador"

Leo Woodall é um talentoso afinador de pianos que descobre outra utilização mais rentável para suas habilidades (Fotos: Paris Filmes)
 
 

Maristela Bretas

 
"O Afinador" ("Tuner") é um filme envolvente sobre um jovem que, devido a uma grave deficiência auditiva, vê o sonho de seguir carreira como pianista ser interrompido. Sem abandonar completamente a música, ele transforma seu talento em uma nova profissão: a de afinador de pianos. O longa estreia nesta quinta-feira nas salas Cineart Ponteio e Del Rey.

Interpretado por Leo Woodall, Niki White é um protagonista carismático e complexo. Mas quem realmente domina as cenas sempre que aparece é Dustin Hoffman, no papel de Harry Horowitz, um renomado ex-pianista e mentor do jovem. 


A química entre os dois funciona perfeitamente. Hoffman traz um humor ácido e afiado ao personagem, enquanto Woodall entrega uma atuação sensível, especialmente nos momentos em que a dor e o desconforto causados pelos sons intensos evidenciam a condição auditiva de Niki.

O trabalho sonoro é um dos grandes trunfos do longa. O diretor utiliza os sons — e até a ausência deles — para ampliar a tensão, intensificando cenas de suspense e ação que mantêm o público constantemente atento.


A rotina da dupla consiste em afinar pianos para clientes ricos e influentes, até que uma situação inesperada leva Niki a descobrir uma habilidade bastante incomum: sua audição diferenciada o torna capaz de ouvir os mecanismos internos de cofres e ajudar a abri-los. 

O talento chama a atenção de uma quadrilha especializada em invadir mansões de luxo, liderada por Uri (Lior Raz), que rapidamente o recruta para o grupo.


A trama lembra, em alguns aspectos, "Em Ritmo de Fuga" (2017), de Edgar Wright. Assim como o personagem de Ansel Elgort naquele filme, Niki também convive com limitações auditivas, mas transforma essa condição em uma habilidade excepcional dentro de um universo criminal.

Em paralelo, Niki conhece Ruthie (Havana Rose Liu), uma estudante de composição musical que o faz descobrir o amor. Mas sua nova vida dupla acabará colocando em risco não apenas seu futuro, mas também todas as pessoas que ama.


Dirigido por Daniel Roher, que assina o roteiro ao lado de Robert Ramsey, "O Afinador" mistura suspense, romance e drama em uma narrativa eficiente, ainda que siga caminhos já conhecidos. O resultado é um entretenimento bem construído, impulsionado por uma excelente trilha sonora que certamente agradará aos amantes da música.

E os fãs de jazz têm um motivo extra para prestar atenção: o lendário pianista e tecladista Herbie Hancock faz uma rápida, mas especial, participação no filme. Também fazem parte do elenco, Tovah Feldshuh (esposa de Harry) e Jean Reno em uma aparição importante.

"O Afinador" passou por importantes festivais internacionais entre 2025 e 2026, incluindo Sundance, TIFF Toronto International Film Festival, BFI London Film Festival e Telluride Film Festival, consolidando sua trajetória antes de chegar ao público.


Ficha técnica:
Direção: Daniel Roher
Roteiro: Daniel Roher e Robert Ramsey
Produção: Black Bear
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: salas Cineart Ponteio e Del Rey
Duração: 1h49
Classificação: 16 anos
País: Canadá
Gêneros: romance, suspense, drama, ação