06 maio 2026

“Aqui Não Entra Luz” - Histórias impactantes escancaram relação do Brasil com empregadas domésticas

Documentário da diretora Karol Maia expõe vivências de mulheres que atuam ou atuaram nesta função
em diversos estados (Fotos: Embaúba Filmes) 
 
 

Eduardo Jr.

 
Estreia no Cine Una Belas Artes, no dia 8 de maio, o documentário “Aqui Não Entra Luz”. Distribuído pela Embaúba Filmes, o longa é dirigido por Karol Maia e apresenta vivências de mulheres que atuam ou atuaram como empregadas domésticas. A partir delas, a obra lança foco sobre uma série de pautas ainda carentes de atenção.  

Durante pouco mais de uma hora o documentário viaja por Minas Gerais, Rio de Janeiro, Maranhão, Bahia e por último, São Paulo. Em cada local, uma trabalhadora doméstica conta suas experiências, e nos ajudam a enxergar quem somos enquanto sociedade (e também sentirmos vergonha). 

Karol Maia (Foto: Lucas Raion)

O filme também assume ares de terapia da diretora. Já de início ela nos convida a olhar para um registro familiar, feito com uma câmera caseira. A partir das memórias pessoais, de quem acompanhou o trabalho da mãe como empregada doméstica, ela levanta questões que provocam a si mesma e ao público do outro lado da tela. 

Mesmo que já tenhamos sido cutucados por Anna Muylaert em “Que Horas Ela Volta” (2015) e pelos diversos casos recentes de pessoas resgatadas de trabalhos análogos à escravidão, a obra de Karol Maia tem potencial de incomodar e fazer o público levar o assunto pra fora da sala de cinema. 

Personagens Rosarinha, Marcelina, Mãe Flor e Cris 

E essas pautas são diversas. Trabalhadores tratados como sub-humanos, a arquitetura opressora do mercado imobiliário, o perverso costume de tratar a profissional “como se fosse da família” e usurpar direitos, o trabalho doméstico como herança… Não para por aí - e ainda piora (mas vou evitar spoilers).  

A diretora se torna narradora e costura as histórias com suas percepções. O texto tem poesia, mas não ameniza a brutalidade do que ouvimos. Ela destaca que no Brasil são seis milhões de trabalhadores domésticos. E, se nos imóveis dos patrões cabem luxos diversos, para toda essa gente humilde ficam as agruras do quartinho de pouca iluminação e quase nenhuma ventilação. 


   

Se a “classe média” quer sufocar as trabalhadoras do lar (sim, no feminino, pois o longa se mostra um recorte da realidade do país, com as mulheres sendo os maiores alvos desta relação de desigualdade), habita nelas o respiro forte de quem enfrenta questões estruturais - de raça, de gênero e de classe.  

A desigualdade já foi observada pelo sistema legal do país, mas na visão de uma destas mulheres, a lei chegou tarde. Ainda assim, Karol tem a sensibilidade de dar voz à leveza e às conquistas destas trabalhadoras. 

Não se espante se notar lágrimas rolando no seu rosto com mais um vídeo caseiro, onde mãe e filha se abraçam em um momento singular. Aplausos para a diretora, que além de tirar do quartinho de empregada e trazer à luz do sol algumas histórias de um Brasil que precisa se fazer melhor, ainda tenta iluminar nossa consciência. 


Ficha Técnica:
Direção e roteiro: Karol Maia
Produção: Apiário Estúdio Criativo, coprodução Surreal Hotel Arts
Elenco: Miriam Mendes, Karol Maia, Cristiane Graciano, Marcelina Martins, Maria do Rosário Rodrigues de Jesus e Matildes Santos Pereira
Distribuição: Embaúba Filmes
Exibição: Una Cine Belas Artes
Duração: 1h20
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gênero: documentário

05 maio 2026

"A Menina Que Queria Ser Pedra" transforma livros antigos em uma rara experiência cinematográfica

Novo filme do artista visual, cineasta e músico Jackson Abacatu propõe desacelerar o olhar em tempos
de excesso (Fotos: Divulgação)
 
 

Da Redação

 
No próximo dia 7 de maio (quinta-feira), às 19 horas, o Cine Santa Tereza, em Belo Horizonte, recebe a estreia do curta-metragem "A Menina Que Queria Ser Pedra", novo trabalho do artista visual, cineasta e músico Jackson Abacatu. 

Com cerca de duas décadas de atuação nas artes e no audiovisual, o diretor mineiro apresenta um filme que une literatura, animação e matéria em uma experiência estética singular.

Um dos grandes destaques do filme está na forma como ele é construído. Utilizando páginas de livros antigos como base para a animação, Abacatu cria cenas a partir da disposição desses livros em diferentes posições, tamanhos e camadas, um processo pouco usual no cinema contemporâneo.


Cada movimento é inicialmente desenvolvido em animação 2D e, em seguida, projetado e pintado manualmente sobre o papel com nanquim. As páginas são então organizadas em composições físicas - que variam de um a vários livros simultaneamente - e capturadas em sequência.

O resultado é uma estética única, em que texto, imagem e materialidade coexistem, criando uma experiência visual quase tátil, marcada por sobreposições, texturas e múltiplas camadas de leitura.


As inspirações do filme

O projeto nasceu a partir de um conto escrito pelo próprio diretor, influenciado pelas leituras do escritor Walter Hugo Mãe. A proposta também dialoga com artistas visuais como William Kentridge e Ekaterina Panikanova, conhecidos por explorar a relação entre desenho, tempo e suporte físico.

Essa convergência entre literatura e artes visuais se reflete na narrativa do filme, que acompanha o diálogo entre duas crianças, um menino inquieto e uma menina serena, em uma reflexão sensível e existencial sobre percepção, tempo e transformação.

Mais do que contar uma história, "A Menina Que Queria Ser Pedra" propõe uma experiência. Em um cenário marcado pelo consumo acelerado de conteúdo e pela fragmentação da atenção, o filme convida o espectador a desacelerar. 


A pedra surge como símbolo central dessa reflexão — representando permanência, silêncio e um tempo diferente do ritmo humano contemporâneo.

A obra sugere que falta-nos um pouco dessa sensação de “pedra”: a capacidade de pausar, contemplar e mergulhar profundamente em uma experiência artística seja no cinema, na música ou em qualquer forma de expressão.

A proposta sensorial se estende à trilha sonora. O filme incorpora uma marimba de pedra (litofone), construída pelo próprio diretor, além de elementos como piano e handpan, criando uma atmosfera sonora leve e imersiva, que acompanha o ritmo contemplativo da obra.


20 anos de experimentação artesanal 

Em 2026, Jackson Abacatu completa duas décadas dedicadas à criação artística. Formado em Cinema de Animação e Escultura pela Escola de Belas Artes da UFMG, o artista mineiro construiu uma carreira marcada pela inquietude criativa e pela recusa em se fixar a uma única linguagem ou técnica. 

Ao longo desses 20 anos, dirigiu 18 curtas-metragens e 18 videoclipes, além de lançar dois álbuns de músicas autorais - números que revelam uma produção consistente e diversificada.

No cinema de animação, Abacatu transitou por técnicas como recorte, 2D tradicional, stop motion, animação em areia e pintura em vidro, sempre priorizando o processo artesanal e a experimentação estética. 


Essa versatilidade rendeu reconhecimento em festivais nacionais e internacionais, com exibições em países como Canadá, Portugal, Argentina, Espanha, Tanzânia e Irlanda, além de prêmios como no 7º Prêmio BDMG Cultural, FCS de estímulo ao curta-metragem de baixo orçamento e Melhor Animação no 33º Festival Guarnicê de Cinema – São Luis-MA, além de Melhor Animação Brasileira no Baixada Animada (RJ).

Obras como "Tembîara" (2011), com sua profunda ligação à cultura indígena e à língua tupi, e "O Homem que Pintava Músicas" (2013), que entrelaça animação e linguagem musical, ilustram outros traços permanentes de sua obra: a conexão com a natureza, a sensorialidade e a busca por experiências contemplativas. 

"A Menina que Queria Ser Pedra" chega como uma síntese madura dessa trajetória - e uma celebração de 20 anos de cinema feito com intenção, autoria e olhar próprio.


Serviço:
Direção e produção: Jackson Abacatu
Estreia: 07 de maio, às 19 horas
Local: Cine Santa Tereza - Rua Estrela do Sul, nº 89, Bairro Santa Tereza - Belo Horizonte
Produção: Etama Produções
Duração: 9 min, com tradução em Libras
Classificação: livre
Categorias: Curta-metragem, animação
País: Brasil