25 março 2026

Amigos de sempre, Fernanda Montenegro e Ary Fontoura se revelam "Velhos Bandidos"

Comédia conta ainda com as participações de Lázaro Ramos, Vladimir Brichta, Bruna Marquezine e
elenco de telenovelas (Fotos: Laura Campanella)
 
 

Maristela Bretas

 
Comédia leve e divertida com Fernanda Montenegro e Ary Fontoura dando aula de dramaturgia e comicidade ao tratarem um tema que já foi muito explorado no cinema - assalto a banco - incluindo a questão da velhice com um humor que só os anos de experiência deles e de outros idosos do elenco saberiam abordar. Recomendo demais.

O longa, dirigido por Cláudio Torres, filho de Fernanda Montenegro, e produzido pela Conspiração, é divertido, sem deixar de lado a emoção. O etarismo é abordado com leveza, de forma divertida, provando que a experiência dos idosos lhes dá uma grande vantagem sobre os "novinhos" e que a idade não pode ser um entrave para a realização dos sonhos.


O filme acompanha o casal de aposentados Marta (Fernanda Montenegro) e Rodolfo (Ary Fontoura), que planejam roubar um banco. Só que, para realizar o crime, eles precisam da participação de um jovem casal de assaltantes, Nancy e Sid, interpretados por Bruna Marquezine e Vladimir Brichta, que foi pego em flagrante tentando roubar a casa deles. 

A forma "diferente" como as vidas dos quatro se cruzam já deixa claro como será o decorrer da trama, que conta com muita ação e cada casal tentando dar um golpe no outro. No meio do caminho, entra uma figura inesperada que pode colocar fim a todo o plano - o obstinado investigador Oswaldo Aranha (Lázaro Ramos).



As estrelas, sem dúvida, são Fernanda Montenegro e Ary Fontoura. Uma dupla carismática, sincronizada e perfeita, que trata a idade avançada não como o fim da vida, e sim, o início de uma nova. No caso de Marta e Rodolfo, com mais dinheiro e muita energia. 

São elesque dão o rumo do filme, levantando a bola para Vladimir Brichta, Lázaro Ramos e Bruna Marquezine chutarem. Uma sintonia que agrada desde o início, com piadas "velhas e boas" que muitos espectadores acima dos 60 vão reconhecer.

A produção não se esqueceu de incluir no elenco artistas que marcaram gerações e hoje estão na Melhor Idade: Reginaldo Faria, Vera Fischer, Teca Pereira, Hamilton Vaz Pereira, Tony Tornado, Laila Garin e Nathalia Timberg.


Em entrevista coletiva de imprensa no Rio de Janeiro, Fernanda Montenegro contou que "Velhos Bandidos" foi um presente que Cláudio Torres deu a ela. "Ele sabe que eu gosto de comédia e tem também os companheiros de cena. Foi um prazer fazer o filme, era divertido. Há uma hora na vida em que a gente não tem mais futuro, sem morbidez, tem só o presente. Eu acho que só tenho o presente. E no presente, eu ter a oportunidade de estar com essa família de opção e ter meu filho me comandando como diretor faz com uma atriz, assim como fez com todo o elenco, é um momento especial", disse. 

Assim como Fernanda, o restante do elenco confirmou que também se divertiu muito durante as gravações.



"Velhos Bandidos" não é um filme para dar gargalhadas, mas as atuações do grande elenco, o plano mirabolante e as situações absurdas e previsíveis que vão sendo criadas pela "improvável quadrilha" são uma promessa de agradar ao público, inclusive o final no estilo novelesco. 

O filme também é uma oportunidade de ver "Fernandona" trabalhar pela primeira vez com Ary, apesar de serem velhos amigos. O mais engraçado é que nenhum dos dois tem cara de vilão - estão mais para mocinhos. Será este o único e último longa dos dois juntos no cinema? Recomendo assistir, um ótimo entretenimento.


Ficha Técnica
Direção e produção: Claudio Torres
Roteiro: Claudio Torres, Fabio Mendes e Renan Flumian
Produção: Conspiração, coprodução da TV Globo, Claro, Star Original Productions
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h33
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gêneros: ação, comédia

24 março 2026

“Peaky Blinders: O Homem Imortal” e o problema de não saber a hora de parar

Cillian Murphy está de volta como Thomas Shelby, personagem que o consagrou na série homônima
(Fotos: BBC Films)
 
 

Jean Piter Miranda

 
O ano é 1940 e a cidade inglesa de Birmingham está sendo atacada pelo exército alemão, durante a Segunda Guerra Mundial. Thomas Shelby (Cillian Murphy) segue recluso, distante de tudo, convivendo com suas dores. 

Após tantas perdas ao longo da vida, ele deixou pra trás seus dias de gângster. Porém, a ligação de nazistas com seu filho Duke (Barry Keoghan) faz com que o maior de todos os Shelby volte à ativa para uma última batalha. 

Esse é “Peaky Blinders: O Homem Imortal” ("Peaky Blinders: The Immortal Man"), filme disponível na Netflix. O longa chega para encerrar “Peaky Blinders”, série de grande sucesso mundial que teve seis temporadas entre 2013 e 2022. 


Ao longo de 30 capítulos, Tommy Shelby se torna um dos maiores gângsteres da Europa. A trama envolve questões familiares, crimes, amizades, lealdade e traições. São muitas brigas, violência, a entrada do clã no mundo dos negócios e também na política. 

Depois de perder amigos, familiares e amores, Tommy não vê mais sentido na vida. Ele então se retira e vai viver sozinho, no interior do país. O antigo gângster agora passa os dias em uma casa assombrada, remoendo o passado diariamente, como uma espécie de penitência. 


Escreve um livro de memórias como um ritual para esquecer tudo o que viveu. Sua única irmã viva, Ada (Sophie Rundle) vai ao seu encontro para pedir ajuda. Ela relata os problemas que enfrenta, em especial com Duke, filho dele.

Como era de se esperar, Ada não consegue convencê-lo a voltar para Birmingham. Porém, a visita inesperada da cigana Kaulo (Rebecca Ferguson) muda tudo. Com seus poderes místicos, ela faz com Tommy mude de ideia. 


É nesse segundo ato, quando a ação se inicia, que o filme começa a se perder. Se na introdução tudo seguia bem, com um desenvolvimento esperado e satisfatório, a partir da saída de Tommy do exílio tudo fica acelerado. Dessa forma, nada parece ter consistência e nem convence. 

A ligação de Duke com os nazistas é rasa, não inspira segurança para nenhum dos lados, ainda mais se tratando de uma missão secreta de alta prioridade. A revolta de Duke com o pai, que a princípio parece ser a base do filme, não se explica. 


O que indicava uma rivalidade e um antagonismo íntimo entre pai e filho, simplesmente não acontece. Tudo se resolve rápido demais, sem nenhum esforço. 

Duke que ora parece ser um gângster duro e destemido, muda rapidamente. Mostra-se fraco e frágil, sem a imponência e a autoridade de um verdadeiro Shelby. 

Isso destoa muito do que é apresentado no início: um líder anarquista pronto para ajudar os nazistas, e que, de repente, passa a integrar uma missão de vingança que também visa salvar a nação. 


Tommy Shelby parte para o que parece ser sua última batalha, que também dará o desfecho ao filme e à série. São momentos que até emocionam, mas não sem forçar muito a barra. 

O roteiro é pouco consistente e apresenta situações nada críveis, difíceis de engolir. É como se tivessem escrito uma temporada inteira e depois fossem cortando partes e fazendo adaptações para tudo caber em um longa - e claro, não ficou bom. 


A série transformou Tommy Shelby em um ícone pop: um personagem temido, respeitado, admirado e amado. Uma aura que saiu das telas e conquistou uma legião de fãs pelo mundo. 

Mas, assim como outras produções, “Peaky Blinders” também não soube a hora de parar. Se estendeu demais - para dar lucro, é evidente - e acabou comprometendo sua essência. É claro que os fãs mais apegados podem fazer vista grossa a tudo isso, em nome da nostalgia e de uma  despedida satisfatória.


Ficha técnica:
Direção: Tom Harper
Roteiro: Steven Knight
Produção:Tiger Aspect Productions, BBC Films, BBC Studios
Exibição: Netflix
Duração: 1h52
Classificação: 18 anos
País: Reino Unido
Gêneros: policial, ação, suspense