24 fevereiro 2026

Breve leitura dos documentários em curta-metragem do Oscar 2026

 
 

Marcos Tadeu

 
Os indicados ao Oscar de Melhor Documentário em Curta-Metragem deste ano mostram uma Academia de Artes e Ciências Cinematográficas cada vez mais próxima dos problemas do mundo real. 

No lugar de histórias "somente para distrair”, os filmes escolhidos falam de situações reais, que estão acontecendo agora na vida de pessoas de verdade. Isso já diz muito sobre o momento que a premiação vive: o Oscar também é um retrato do tempo atual. Confira os concorrentes, três deles já disponíveis em streaming:

"O Diabo Não Tem Descanso" (HBO Max) entra num tema pesado sem enrolação. O curta acompanha a equipe médica que garante a segurança de mulheres que buscam o aborto. São profissionais que vivem esse conflito todos os dias e a produção mostra o cansaço, o medo e a pressão constante. 

Não é um filme para agradar todo mundo e sim para provocar. Ele joga o espectador para dentro da realidade de quem está ali, tentando sobreviver e seguir em frente em meio a decisões difíceis. A obra é a mais cotada da categoria.

Ficha técnica
Direção:
Christalyn Hampton e Geeta Gandbhir
Duração: 31 minutos
Classificação: 12 anos
Exibição: HBO Max
País: EUA



"Quartos Vazios" (Netflix) escolhe falar por meio do silêncio. Um jornalista e um fotógrafo registram os quartos de crianças e adolescentes que morreram em ataques a escolas. O filme leva o espectador a sentir a falta dessas pessoas, mesmo sem conhecer suas histórias. Não tem choque visual, não tem discurso político direto, tem ausência, e a ausência pesa. É o tipo de obra que faz a dor parecer mais próxima, mais real, mais humana.

Ficha técnica
Direção:
Joshua Seftel
Duração: 33 minutos
Classificação: 12 anos
Exibição: Netflix
País: EUA


"Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud" (HBO Max) lembra que por trás de cada imagem de guerra há alguém correndo risco para contar o que está acontecendo. O  documentário é uma homenagem do diretor ao seu irmão, Brent Renaud, o primeiro jornalista americano morto na Guerra da Ucrânia. Ele aproxima o público da figura deste profissional e faz pensar em como consumimos essas imagens no dia a dia, muitas vezes sem lembrar do custo humano que existe por trás delas.

Ficha técnica:
Direção:
Brent Renaud e Craig Renaud
Duração: 39 minutos
Classificação: 16 anos
Exibição: HBO Max 
País: EUA


"Children No More: Were and Are Gone" retrata um grupo de ativistas israelenses pela paz que realiza vigílias silenciosas semanais em Tel Aviv. Numa resistência silenciosa, eles seguram fotos de crianças palestinas mortas em Gaza. A produção foca nas reações no público às manifestações: indiferença, tristeza, negação e até violência contra as ativistas. Ainda não está disponível em streaming no Brasil.

Ficha técnica
Direção:
Hilla Medalia
Duração: 36 minutos
Classificação: 12 anos
Exibição: ainda sem previsão de chegar ao streaming do Brasil
País: a sociedade israelense


"Perfectly a Strangeness" - ambientado no deserto do Atacama, no Chile, o curta mostra a percepção do universo através da visão de três burros que descobrem um observatório astronômico abandonado. O filme explora o visual, mas se arrasta, mesmo com seus 15 minutos de duração. A abordagem é mais filosófica e intelectual, com longos silêncios, o que pode não agradar ao público em geral.

Ficha técnica
Direção e roteiro: Alison McAlpine
Duração: 15 minutos
Classificação: não informada
Exibição: ainda sem previsão de chegar ao streaming do Brasil
País: Canadá


Essa seleção mostra que a categoria de documentário de curta-metragem no Oscar se mantém como o espaço onde o cinema encara o mundo sem tanto filtro. São filmes que não querem só entreter: querem fazer sentir, pensar e, em alguns casos, até incomodar. 

A cerimônia do Oscar acontece dia 15 de março, em Los Angeles. Acompanhe com o Cinema no Escurinho.


18 fevereiro 2026

“O Frio da Morte”: thriller gelado sobre amor, solidão e sobrevivência

Emma Thompson brilha como a viúva que precisa salvar uma jovem mantida como refém numa cabana
em meio a uma floresta coberta de neve (Fotos: Leonine Studios)
 
 

Maristela Bretas

 
Um thriller de ação tenso e surpreendente, de gelar os ossos - literalmente - e que prende o espectador na cadeira do início ao fim. Este é "O Frio da Morte" ("Dead of Winter"), que estreia nesta quinta-feira (19) nos cinemas, com uma atuação brilhante de Emma Thompson no papel principal.

Ela é Barb, uma mulher que acaba de perder o marido, com quem passou boa parte da vida. Para atender ao último desejo do esposo, parte em sua velha caminhonete em uma viagem solitária até o Lago Hilda, no norte de Minnesota, onde pretende espalhar as cinzas no local em que passaram as primeiras férias juntos. 


Durante o trajeto é surpreendida por uma forte nevasca e se perde nas estradas tomadas pela neve perto do lago. Ao parar para pedir informações em uma cabana isolada na floresta, Barb descobre que uma jovem chamada Leah (Laurel Marsden) está sendo mantida em cativeiro por um casal, interpretado por Judy Greer (Purple Lady) e Marc Menchaca (Camo Jacket). Sem ter a quem recorrer, ela vai fazer de tudo para salvar a refém. 

Desde o início, o filme provoca tensão ao mostrar a protagonista circulando sozinha durante a tempestade, mal conseguindo enxergar o caminho. 


O cenário gélido, o estranho dono da cabana que mal pronuncia dez palavras ao lhe dar informações e a companheira dele, com fúria e angústia nos olhos, reforçam a atmosfera inquietante. 

Durante a tentativa de resgate da jovem ocorrem várias reviravoltas. A violência é latente e em alguns momentos, explícita. Mas o que mais incomoda é a presença constante da morte - tanto nas memórias da viúva, presa aos dias bons e ruins com o marido falecido, quanto na relação desgastada dos sequestradores.


Barb é uma mulher pacífica, mas as circunstâncias a levam a tomar medidas extremas para salvar Leah. Sem querer defender os "bandidos", eles também têm seus motivos pessoais para agir como agem, o que evidentemente, não justifica os crimes cometidos.

Os cenários são uma atração à parte. Filmado na Finlândia, Canadá e Alemanha (mesmo com a história ambientada nos Estados Unidos), "O Frio da Morte" entrega belas imagens de montanhas e florestas cobertas de neve e lagos congelados. Difícil não sentir o vazio e a finitude que emanam do ambiente.


Leah torna-se o ponto em comum entre Barb e os sequestradores. Torce para ser salva pela viúva, mas não sabe se o socorro chegará a tempo de evitar seu seja morta por seus algozes. Mas ficou uma falha no roteiro: como ela conheceu o casal que a sequestrou?

Já Barb sente a morte ainda mais presente após a perda do marido, e a jovem Lhe oferece uma nova razão para viver. Algo semelhante ocorri com Purple Lady e Camo Jacket, que mantêm um relacionamento conturbado marcado por violência doméstica.


O longa permite diversas interpretações - algumas sutis, outras mais evidentes - cabendo a cada personagem revelar por que está ali: memórias que não podem ser esquecidas, saudade, solidão, perdas, relação abusiva, a luta pela sobrevivência. 

O frio da morte pode significar a queda da temperatura do corpo (hipotermia ) que pode matar, a rigidez cadavérica, o desejo de morrer e também o medo de que isso aconteça antes da hora.

"O Frio da Morte" é um filme que eu recomendo. Pena que a reviravolta final não tenha sido a que eu desejava, embora faça sentido dentro da trama. Vale conferir nos cinemas. Um lembrete: não esqueça de levar um casaco - o ar-condicionado parece tornar a experiência ainda mais fria, além da neve Coisa de gelar os ossos. Depois comenta aqui o que achou.


Ficha técnica:
Direção: Brian Kirk
Roteiro: Nicholas Jacobson-Larson e Dalton Leeb
Produção: Augenschein Filmproduktion e Stampede Ventures, com a coprodução da Leonine Studios
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h38
Classificação: 14 anos
Países: EUA, Canadá e Alemanha
Gêneros: ação, suspense psicológico