Filme marca retorno do cineasta François Ozon ao humor (Fotos: Carole Bethuel) |
Eduardo Jr.
Uma atriz sem talento e uma advogada se unem para assumir um crime e conduzir uma farsa que vai tirá-las da pobreza em que se encontram, na França dos anos 1930.
Este pode ser um breve resumo de “O Crime é Meu” ("Mon Crime"), novo filme do cineasta francês François Ozon que estreia nesta quinta-feira (6), distribuído pela Imovision. Em BH, ele poderá ser conferido no Cineart Ponteio e no UNA Cine Belas Artes.
Mas o longa é mais do que isso. É uma comédia inteligente, que diverte e impressiona pela teatralidade na tela. Também é uma homenagem à sétima arte, com referências ao cinema mudo e situações non sense impagáveis, típicas das comédias das décadas de 1930 e 1940. E ainda se posiciona como um retorno do cineasta ao gênero do humor.
No filme, Madeleine (Nadia Tereszkiewicz) é uma atriz à beira da miséria acusada de ter assassinado um famoso produtor de cinema. Para defendê-la em uma sociedade machista, ela conta com a amiga Pauline (Rebecca Marder), uma advogada mal-sucedida.
Prestes a serem despejadas, elas enxergam que alegar inocência é menos lucrativo, já que testemunhas recebem dinheiro para falar o que sabem. Assumir o crime pode fazer com que elas tenham os holofotes da mídia, permitindo surfar uma onda de fama.
Qualquer semelhança com a sociedade atual, seria mera coincidência? O julgamento no tribunal se torna um espetáculo, um palco para Madeleine mostrar que pode atuar.
E também Pauline, a advogada que aproveita seu primeiro grande caso para se posicionar como militante feminista frente a um júri composto apenas por homens. Começa ali a vida de celebridade, com uma confissão de assassinato.
O filme é metaliguístico porque fala do próprio cinema. Além da homenagem a nomes como Billy Wilder, coloca na tela cenas com estética de cinema mudo para ilustrar o crime, trazendo a encenação pra dentro da encenação. Diálogos rápidos e absurdos fazem lembrar comédias antigas.
Um dos melhores exemplos disso está na entrada em cena da atriz Isabelle Huppert. Ela vive Odette Chaumette, uma atriz esquecida que quer assumir o assassinato do produtor - não por uma questão de justiça, mas para ter a fama que Madeleine conquistou se dizendo assassina.
Assim como Madeleine e Odette, outras personagens na trama são exemplos de que a verdade não importa tanto quanto as convenções, o dinheiro e o status. Neste cenário criado e mantido por homens, a predominância de um elenco feminino é outro destaque no filme.
Ozon dá espaço às mulheres para que ampliem sua voz. Mas não se aprofunda muito em apresentar a história dessas personagens. Vide a curva da personagem Pauline, que passa pela figura da mulher que não é desejada, flerta com a homossexualidade e rapidamente é uma advogada segura e midiática.
Mas isso é algo que pode passar despercebido, pois o filme é teatral, tem bom ritmo, mal dá tempo pra analisar esse ponto. Os diálogos preenchem os espaços, se emendam ágeis e engraçados.
O filme, uma adaptação livre da peça francesa de 1934, "Mon Crime", de Georges Berr e Louis Verneuil, é uma comédia capaz de figurar entre as melhores do ano, mesmo que em alguns momentos pareça um deboche da espetacularização que fazemos com tudo.
Ficha técnica:
Direção e roteiro: François OzonProdução: France 2 Cinéma, Playtime, Scope Pictures, Mandarin Cinéma, Foz, Gaumont
Distribuição: Imovision
Exibição: Cineart Ponteio e UNA Cine Belas Artes
Duração: 1h55
Classificação: 14 anos
País: França
Gênero: comédia dramática
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